APRESENTAÇÃO

“A TERRA DE QUE A GENTE GOSTA” é expressão que nos agrada. É sentida e é profunda, e é adotada como a ideia força de “TomarOpinião”.

Pretendemos oferecer críticas construtivas e diversificadas sobre os valores, as coisas e as atualidades da nossa terra, e não só. Pretendemos criar um elemento despertador de consciências e de iniciativas de cidadania, e constituir uma referência na abordagem descomprometida desses valores, dessas coisas e dessas atualidades.

Queremos, portanto, estimular o debate, de temas e de ideias, porque acreditamos que dele podem resultar dinâmicas de cidadania, que alicercem mudanças que por certo todos aspiramos.

“TomarOpinião” será um blogue de artigos de opinião e um espaço de expressão livre e responsável, diversificada e ampla.

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domingo, 16 de outubro de 2016

CAMPOS DE FÉRIAS / A MINHA CASA É A TUA CASA

            Carlos Trincão

O tema é República, mas prefiro “Res publica”, isto é, o que é público, a coisa pública. Daí que…
Decorreu este Verão, sob a dinâmica e eficaz coordenação da Filipa Fernandes e dos responsáveis políticos da Junta de Freguesia de Santa Maria dos Olivais e S. João Batista, através do programa JUNTANIMA, um conjunto de semanas de férias educativas e recreativas para jovens e crianças do nosso Concelho. De resto, o mesmo já se passara em anos anteriores, o que merece o meu aplauso e estímulo, se é que a minha palavra tem algum “poder” nesse campo (presunção e água-benta…).
Esta questão é-me particularmente grata pois que, trabalhando com crianças, reconheço a importância e a valia desta iniciativa.
Atrevo-me, portanto, a repescar um texto meu de há 10 anos, apresentado na Assembleia Municipal de Tomar, sobre matéria convergente, PRINCIPALMENTE, para dar mais lenha para a Filipa carregar. as ideias nunca estão a mais e podendo haver maneira de as aproveitar, caso interessem, e juntar vontades, todos ganhamos.
Aqui fica, portanto, o meu contributo sobre esta matéria:

Em 31 de Março do corrente [estávamos em 2006], no âmbito do debate sobre o Regulamento das Férias Desportivas, o Bloco de Esquerda produziu uma intervenção na qual sistematizou um conjunto de ideias susceptíveis de corporizarem o embrião de um processo de criação de Campos de Férias Residenciais em Tomar, intervenção essa que suscitou acenos de simpatia por parte de outros membros desta Assembleia.
Afirmámos, então, que voltaríamos a esta temática em altura que o permitisse fazer de modo mais formal, o que acontece agora.
Tendo consciência de que não compete a esta Assembleia intervir neste aspecto, é, todavia, também, nossa obrigação aconselhar ou sugerir ao Executivo as opções que considerarmos adequadas para o enriquecimento do nosso Concelho, pelo que se sistematiza, de novo, aquele conjunto de sugestões:

1 – Criação de Campos de Férias residenciais susceptíveis de acolher jovens de outros pontos do país e do estrangeiro, salvaguardando desde logo uma quota para residentes no Concelho.

2 – Definição das actividades por áreas de intervenção, temáticas ou generalistas (Desporto, Música, Artes Plásticas, Teatro, Acampamento,...) monitoradas por Associações e Clubes locais.

3 – Concretização destes campos com a intervenção de Mecenas e outros (Ministérios – ou Secretarias de Estado – da Educação, Cultura, Desporto e Juventude, Emprego e Segurança Social).

4 – Possibilidade de participação nestes campos de férias de jovens do Concelho oriundos de famílias de menores recursos financeiros em condições de apoio especiais.

5 – Criação de quotas em todos os programas para filhos de cidadãos tomarenses emigrados.

6 – Divulgação deste programa em cidades com afinidades histórico-culturais com Tomar (Viseu ou Santarém, por exemplo), laços de cooperação, como a Rede Europeia das Cidades dos Descobrimentos (Lamego, Castelo Branco, Coimbra, Porto, Lagos, Lisboa, entre outras) ou as Associações de Municípios da Ordem de Cister e com Centro Histórico.

7 – Promoção deste programa em cidades com que Tomar mantém geminações (Haddera, Vincennes), actividade anterior, como a Rede Europeia das Cidades dos Descobrimentos (com cidades em Espanha, Bélgica, Itália e Holanda), Pontedera e Pisa (Festival Sete Sóis Sete Luas), Galway (Irlanda, Rede das Cidades Médias Europeias) e com as cidades do Projecto Les Fêtes du Soleil (Siena em Itália, Beersheva em Israel, Le Kef na Tunísia, ilha de Gozo – Malta e Versailles).

8 – Criação, com os responsáveis políticos das cidades referidas, de condições para que
jovens tomarenses, ou filhos de tomarenses emigrados, possam aí ter acesso a programas similares.

9 – Lançamento do programa de férias “A minha família é a tua família, a tua família é a minha família”, criando uma rede recíproca de famílias acolhedoras de jovens de outros países.

10 – Criação de um projecto paralelo de promoção de Tomar junto das outras cidades a par do projecto de divulgação dos dois anteriores: Campos de Férias e Famílias Acolhedoras.

Assim, e fazendo a “ponte” entre uma proposta e uma recomendação, como por vezes é sugerido, proponho que esta Assembleia recomende ao Executivo a apreciação dos 10 pontos anteriormente sistematizados.

Tomar, 20 de Abril de 2006

sábado, 24 de setembro de 2016

MATA DOS SETE MONTES: A FLORESTA DAS LENDAS

Carlos Trincão

Nestes dias em que decorrem as Jornadas Europeias do Património, entendi que poderia ser interessante repescar um artigo que publiquei no semanário Cidade de Tomar, em março deste ano. 
Trata-se de uma abordagem em torno do património vegetal que temos em Tomar. 
O que adianto não é de fácil concretização, tais os problemas a contornar. Nem sei mesmo se, ainda que contornando questões de ordem burocrática e outras que tenham a ver com a tutela do sítio para onde defendo a intervenção, seria possível enveredar por tal caminho. De qualquer modo, arriscando a polémica ou a megalomania com que possa ser vista a ideia que apresento, “pela rama”, aqui fica o meu contributo.

A Floresta das Lendas, a concretizar na Mata dos 7 Montes, seria um projecto de animação turístico-cultural em torno das lendas, mitos, fábulas, histórias tradicionais e contos populares, focando a sua actividade na representação e recriação desse Património Imaterial, contribuindo para a animação, recuperação e conservação do lugar, reforçarando a ligação ao Castelo/Convento e enquadrando o imaginário templário como algo a explorar.
Seria um projecto etariamente transversal, que buscaria formas para ultrapassar constrangimentos meteorológicos e incorporaria conceitos como parque temático, campo de férias, acampamento, centro de recursos e recurso educativo, parque de merendas, percursos de lazer e centro de interpretação da Natureza.
Aliar-se-ia a elementos de captação de visitantes, na cidade, como restauração, alojamento e outros, podendo vir a estimular as autoridades para a criação de outros equipamentos de acolhimento, como uma Pousada de Juventude.
Seria um projecto estimulador do crescimento do caudal de visitantes e de criação de emprego, podendo recorrer a empresas e/ou entidades com actividade convergente.
Como as árvores, seria um projecto em crescimento permanente.
A Floresta das Lendas teria percursos para descoberta de lendas, mitos, fábulas, histórias tradicionais e contos populares assentes nos caminhos existentes ou na criação de ligações adicionais, perenes ou efémeras, terrestres ou aéreas (passadiços), utilizando recursos naturais ou construídos pré-existentes, ou a construir de forma sustentável e livre de ruídos ambientais.
Por exemplo, o conto “A casinha de chocolate” implicaria a instalação de um módulo em madeira (cabana), adaptável a outra história ou lenda, sei lá… o “Capuchinho Vermelho”, em rotatividade a definir, pois que seriam aconselháveis esquemas de exploração renováveis, com rentabilização/adaptação dos recursos físicos naturais ou artificiais, conseguindo-se um “parque temático” sempre diferente, logo potenciador de visitas para os mesmos públicos em ocasiões diferentes. E multiplicar-se-iam as cabanas para diversas histórias durante a visita.
Os seres mitológicos (dragões, grifos, unicórnios, sereias, lobisomens, …) traduzir-se-iam em elementos escultóricos auto e inter-activos: em Cracóvia, um dragão deita fogo regularmente ou quando é enviada uma sms para determinado número; ora, pelo mesmo modo bateriam asas do Pégaso, o Minotauro rugiria ou um dragão fumegaria pelas narinas… Pequenas esculturas de duendes, gnomos, fadas e anões propiciariam pistas e informações.
Os desportos radicais convergiriam para a exploração das histórias: parede de escalada para subir à torre da princesa, rappel para fugir do gigante do castelo das nuvens (uma casa numa árvore), slide para um Ícaro a voar e os tanques da Mata seriam fundamentais para lendas com a água por referencial…
Como exploração educativa, a Floresta das Lendas teria um Centro de Interpretação – filmes, música, vestuário, iconografia, informação adaptada ao tipo de visita (individual, grupo, totalidade, ou parte, da oferta…), biblioteca / mediateca, galeria de autores, atividades plásticas, …
A Floresta das Lendas colaboraria com as escolas e com o Ministério da Educação.
A Floresta das Lendas teria recepção, bilheteira e loja, restaurante e café/bar. Não se trataria de cobrar entradas para a Mata, mas sim cobrar entradas para o usufruto das atividades que se escolhessem, em programas pré-definidos e organizados ou, mesmo, para usufruto autónomo tendo por guias aparelhagem adequada, aplicações digitais para telemóvel ou outras soluções.
Em poucas palavras, a ideia seria levar à Mata dos 7 Montes mais um elemento de atração de visitantes, potenciando-a e exponenciando-a com recursos de outra ordem já existentes, como o Centro de Interpretação Ambiental.


sábado, 10 de setembro de 2016

FATIAS DE TOMAR: PATRIMÓNIO PARA QUEM?


Carlos Trincão

Leu-se há poucas semanas na web, nos jornais e ouviu-se na TV que Bruxelas classificou o Pão de Ló de Ovar como produto protegido, sendo o 17.º produto português a receber a designação pela Comissão Europeia com a Indicação Geográfica Protegida (IGP).
Ainda pela Imprensa, deu-se a conhecer a todo o País que o “Pão de Ló de Ovar - e a sua miniatura conhecida por Infantes - é um produto de pastelaria à base de ovos, sobretudo gemas, açúcar e farinha. Apresenta-se dentro de uma forma revestida com papel branco, com o formato de uma 'broa', de massa leve, cremosa, fofa e de cor amarela designada por 'ló'. Tem uma côdea fina acastanhada dourada levemente húmida e com o interior de textura húmida. O produto é confecionado no concelho de Ovar, freguesias de Esmoriz, Cortegaça, Maceda, Arada, Ovar, S. João, S. Vicente e Válega.”
Ainda bem, tanto mais que outros produtos gastronómicos portugueses tinham sido já, anos antes, defendidos e certificados.
Quando li a notícia pela primeira vez, no Facebook, teci um comentário em que a certa altura referia que não é com festivaizinhos de doces conventuais que íamos lá (ou coisa que o valha), isto é, que defendíamos convenientemente e com garra as Fatias de Tomar, o doce tomarense por excelência.
Faz agora (já fez, em fevereiro) 10 anos, apresentei na Assembleia Municipal, em nome do Bloco de Esquerda, uma proposta sobre Doçaria Tradicional assente no Programa Eleitoral e na vertente da nossa Proposta de Plano de Desenvolvimento Concelhio, que aqui me dispenso de referir, na qual, com o triplo objectivo de defender e promover a cultura gastronómica tomarense, reforçar a promoção turística de Tomar e estimular uma dinâmica económica em torno das “Fatias”, se propunha à Assembleia Municipal que sensibilizasse o Executivo para a vantagem da criação de um “momento gastronómico” anual potenciador das “Fatias de Tomar”, se possível ainda durante o ano de 2006, para a vantagem do registo da patente da “panela tradicional” em benefício dos artesãos locais que ainda a produzem e para a criação do “Núcleo da Latoaria” no âmbito do Museu Municipal de Tomar.
Na altura, o PSD, talvez a pensar que se estava a falar de um qualquer assunto perigoso e fracturante da sociedade, inviabilizou a proposta. Mas teve a hipótese de se redimir, em abril do mesmo ano, quando voltei à carga.
O problema foi depois!
Primeiro que o Executivo decidisse dar corda aos sapatos passaram-se eternidades e quando, enfim, a coisa nasceu, apresentada nos Lagares d’El Rey pomposamente, mas sem pompa, e circunstancialmente, mas sem circunstância, dei por a mim a pensar: Caramba… mas não foi nada disto que a Assembleia Municipal aprovou!” Ainda por cima, algo que tinha nascido por causa das “Fatias”, era acompanhado com uma degustação de “Beija-me Depressa”…
De facto, foi criado, à moda de Alcobaça, mas muito mal copiado, um festivalzito de doces tradicionais tomarenses, prolongado no tempo de umas semanas mas sem um momento verdadeiramente catalisador e captador de visitantes. Ainda aí veio a televisão, uma vez, parece. De fugida e no meio de um dos programas de animação das manhãs.
Bem… quando se faz uma coisa a copiar outra, como o festival de Alcobaça, que até tem promovido a criação de novos produtos, fica-se sempre por baixo porque, simplesmente, estamos a copiar e a não dar alma.
Resultado: a coisa ficou, ficou, ficou:
As Fatias ficaram para trás na sua defesa, certificação e promoção. A panela OVAL ficou CIRCULAR. O apoio aos artesãos ficou no papel. E o Núcleo da Latoaria ficou no esquecimento.
E agora que a Câmara já não é PSD, mas de Partidos que aprovaram a dita proposta de há dez anos… deixam tudo na mesma.
Eu sei que as Fatias são uma bomba calórica que deve fazer mal como sei lá o quê e que dá uma trabalheira de se lhe tirar o chapéu. Deve ser por isso que não lhe ligam nenhuma.

É o que temos.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

ALÉM-FRONTEIRAS / AQUÉM-FRONTEIRAS

Carlos Trincão

Tive que intervalar largas semanas, que o tempo, ao contrário do que pensamos, não dá para tudo. Até porque a gente, com a velocidade dos dias não dá pelo passar da vida…
Ainda atrasado no tema do mês passado, transformo-o agora no post livre. O crime fica para outro dia, ainda em Julho.
Frenesim era em Tomar, nos dias seguintes ao 25 de Abril: a sofreguidão por notícias era tanta que as pessoas iam à estação dos comboios esperar os jornais. Os revendedores que ali iam buscá-los, aí logo os vendiam! Improvisavam a banca naquele balcão largo e baixo que separava a área dos passageiros da área de despachos e preparação de carga. Largavam os maços atados, desatavam-nos à navalhada e tinham que ter cuidado com algum cliente mais impaciente que se apressasse a pegar no jornal e se esquecesse de pagar.
Frenesim é agora por essa Europa fora, atentado atrás de atentado. Frenesim é agora na Turquia, golpe atrás de golpe. O problema, para variar, está nos homens, que aqui nem me atrevo a escrever com agá grande.
            O que me chateia é que o pessoal anda todo às turras por causa de nada a não ser esta ideia maluca de querer mandar nos outros à força. E depois, malham uns nos outros em nome do mesmo Pai: Alá, Jeová e Deus.
            Vai para largos anos, quando estive pela primeira vez na Turquia, se houve locais onde encontrei Tolerância com muitos tês maiúsculos foi, precisamente, nas mesquitas. Aliás, as notas de viagem turcas eram invariavelmente escritas nas mesquitas, pernas cruzadas e rabo no chão. O silêncio, o recolhimento e a frescura davam o tom ideal.
Agora, as coisas talvez comecem a ser bem diferentes. Não sei.
Nessa altura, e penso que ainda será, Kornurlar era uma aldeia perdida que nem vem no mapa. Calhava ficar mesmo à borda de um caravanserai da antiga Rota da Seda, entre Bursa e Iznic, a velha Niceia.
            Só isso já dava que pensar: Niceia, Concílio de Niceia quando o Cristianismo tinha dentes de leite, Credo oficial da Igreja… cuja igreja onde tudo aconteceu se visita agora num país de religião islâmica.
            Em Kornurlar, a vida seguia o ritmo não frenético da transumância, razão para que os amigos que ali fiz me dissessem que não precisavam de grandes casas. E realmente…
            As casas são o que são e que eu vi, mas a Mesquita era o seu ai-jesus, passo a expressão: simples, mas um mimo! Porém, o curioso é uma das pedras de uma das paredes exteriores de suporte com uma cruz cristã gravada que me apontavam com orgulho e sorrisos.
            Então porque é que a gente complica as coisas?
          Eu sei que houve a Guerra Santa; mas também houve Cruzadas, algumas tipo-vá-para-fora-cá-dentro, como aquela contra os Albigences, já para não falar da Inquisição ou do saque de Constantinopla. De modo que não vale a pena ir por aí, pois todos têm culpa no cartório. Nem vale a pena falar de minorias fundamentalistas, porque fundamentalistas também são muitas maiorias, islâmicas, judaicas ou cristãs. Ou políticas, mas isso é outra história. Ou não?
            Caramba, porque é que as coisas não são assim tão simples como naquela parede de Kornurlar?


domingo, 17 de julho de 2016

O "CRIME" DA CHINFRINEIRA

Mário Cobra

Há crimes globais, assassinatos. Há dias a esta parte os noticiários televisivos não falam de outra coisa. Até já declinaram as feéricas festas relativas à vitória da selecção nacional.
Há “crimes” nacionais, sejam políticos, sejam financeiros. Seja a situação das instituições bancárias, seja o “festival da sanção europeia ”. Pois, estas questões não cabem numa simples e ligeira crónica. Mais ainda por causa do calor.
Há “crimes” regionais e locais. Exemplo de “crime” regional, quem conhece a situação do caos na urgência do Hospital de Abrantes deve qualificar de atentado à saúde dos cidadãos enfiarem naquela confusão mais uma urgência do serviço de cardiologia. Este será um “crime” pouco saudável para quantos necessitem de recorrer à urgência do Hospital de Abrantes, onde o comum do cidadão acaba por cair, penando tormentas.
“Crime” local de lesa turismo. Tanto quanto foi tornado público, face às reclamações, em especial da gerência do Hotel dos Templários, porque no ano passado a prolongada chinfrineira da festa da cerveja terá atingido foros de fazer perder a paciência a um surdo, o executivo assumiu que este ano o arraial se realizava no mercado municipal, evitando assim molestar os clientes do hotel. Imagine-se quantos decidam vir passar um fim-de-semana a Tomar, no hotel junto ao rio, paisagem idílica (assim seria se fosse) jardins floridos (escrevemos floridos embora soe a vernáculo semelhante). Pois, imagine-se os turistas confrontos com um arraial à cabeceira, tortuosa marca de receber os visitantes. Tanto quanto nos apercebemos, não foi tornada pública a razão do executivo ter retrocedido na intenção assumida, mas deduzimos que os organizadores da festa se tenham recusado a realizar o evento no espaço do mercado. Daí o executivo tenha optado pela solução “Haja festa. Se lixem os turistas. O povinho quer é festas e mais festinhas”. Em nossa modesta opinião, o local certo da realização da festa seria na Praça da República, durante toda a semana, dia e noite, ficando assim o executivo a saber quanto custa gramar o frete.
“Crime” de confundir o género humano com o Manuel Germano será a proposta da câmara ao ministro da Cultura no sentido de se engendrar uma gestão partilhada no caso do Convento de Cristo. Ou seja, um executivo que não consegue sequer resolver questões bem mais simples como seja a limpeza da cidade e do concelho, entende-se capaz de co-gerir o Convento de Cristo. Salvo se a proposta do executivo for no sentido do Ministério assegurar as despesas correntes e os investimentos cabendo à câmara municipal arrecadar as receitas das entradas. Assim vai fazer o executivo na caça à verba ao propor taxar o estacionamento em quase toda a cidade, pelo informado sem atender sequer a uma prática comum de permitir estacionamento aos moradores.
Em termo de receitas à má fila, propomos, por exemplo, a câmara iniciar a cobrança de bilhete de acesso a quem recorrer aos seus serviço, a quem quiser ir ao mercado municipal, a quem quiser entrar nos cemitérios, incluindo os que vão no caixão.
Mais havendo para dizer, fica a sugestão de que os órgãos de comunicação, blogues e quejandos abram uma secção com o título “Crimes urbanos, mazelas rurais”.
Que não lhes doa o teclado.
Outra sugestão, que a câmara promova, em Agosto, a grande festa dos tomates, coisa que por cá em termos autárquicos vai faltando cada vez mais.
Já agora, muita intenção dita popular pode induzir determinado tipo de cheirinho a prevaricação. Caso deste respigo de notícia - "O pátio das cantigas" e "O leão da Estrela" somaram mais de 805 mil espectadores e cerca de quatro milhões de euros. Exemplo de como o mau gosto pode ser compensado, assim dizem os críticos, os maus da fita.
Há sempre também uns maus da festa, ditos politicamente incorrectos, a lamentarem-se das inquinadas repercussões.


quinta-feira, 30 de junho de 2016

FRENESINS

António Pedro Costa

Em pleno seculo XXI, vivemos uma autêntica “enxurrada” de informações, que nos permite dizer que a notícia que aconteceu há 5 minutos, já é passado. Atualmente, a nossa vivência é de facto um frenesim. Vivemos tempos onde a superficialidade e a constante informação, torna o mundo mais leviano e lhe confere constante mutação. É um autêntico frenesim!
  O frenesim do desporto. A intensidade, a frenética que vemos e vivemos no futebol, torna este desporto um centro nevrálgico de uma constante e consequente informação. Tomemos como o exemplo, o caso da seleção nacional. Ao ligarmos o televisor, os constantes diretos, de treinos, de passeios dos jogadores, de microfones a irem parar ao rio, o esmiuçar de posturas, de comportamentos, de afirmações, tudo é escrutinado.
  No consumo. Basta entrar num centro comercial, e deparamos com o frenesim de gente. O “circo” está montado! As autênticas campanhas de consumo montadas pelas marcas têm como objetivo submergir as pessoas, induzir o comprar só por comprar, num frenesim por vezes diabólico. Outros exemplos, nos hipermercados, as promoções, os descontos em cartão, no combustível, no pague 2 e leve 3, tudo torna a política de consumo frenética.
  Nas nossas vidas. Hoje em dia, é com alguma certa ironia, que vejo algumas pessoas a chamarem-se “irmãos” e “irmãs”, com uma facilidade incrível, sendo apenas pessoas amigas. É um sinal dos nossos tempos, uma espécie de moda, que é mais utilizada pelos mais novos, mas que gente mais crescida - também gosta de exibir. Não condeno, de todo. Apenas acho que uma palavra que tem tanta profundidade - não deve ser misturada com amizade. Podem acusar-me de retrógrado, mas misturar este tipo de coisas não é coisa que deva ser feito. Tenho grandes amigos, a quem poderia chamar de “irmãos” mas prefiro que eles continuem a ser grandes amigos e presentes na minha vida, do que “irmãos”. A frenética deste juízo que faço, está na constante mutação de amizade, de relacionamento entre as pessoas sejam pessoal ou até mesmo profissional, mas que de um momento para o outro desaba. A frenética de sentimentos seja de que maneira for é por vezes tão pequena, que ao mínimo tremor, tudo desaba. Deixam de ser “irmãos”, para se zangarem como “comadres”.
  E como não podia deixar ser, um campo onde a frenética tem sido total, a política. O espelho do que é um político frenético: o Presidente da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa. É um autêntico frenesim a sua agenda política. De facto, tenho de deixar uma nota positiva ao seu trabalho inicial, digno de um verdadeiro chefe de estado. A sua postura tem sido muito interventiva, talvez um pouco de moderação não seria mau é verdade, mas a postura verdadeiramente institucional - de representante máximo do Estado é salutar.
  O Governo Português é outro tipo de frenesim, mas diferente da postura da Presidência da República. Com uma certa “arte geringonça”, o nosso primeiro-ministro vai ultrapassando obstáculos e sobrevivendo. A sobrevivência passa pela satisfação de necessidades que a esquerda gostaria de realizar. Com apresentação de algumas propostas que apenas são como “boias de salvação” deste governo. Resta esperar as consequências de algumas medidas tão rapidamente aprovadas, não arriscamos a ter novamente uma frenética de eleições legislativas.
  No poder local o frenesim é muito baixo, quase nulo, apresentando esporadicamente alguns picos frenéticos. No entanto, Tomar vive um frenesim negativo. O frenesim político negativo, que torna a nossa terra numa terra sem solução à vista. O concelho de Tomar podia ser um autêntico frenesim positivo, e com um progresso fantástico. Ao invés, a pseudo-frenética que nestes últimos 3 anos se viveu em Tomar, traz uma perspetiva pouca animadora. Contudo, esperemos que o frenesim político tomarense, se torne diferente e com uma perspetiva política frenética…positiva e bem preparada.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

FRENESIM?

Carlos Carvalheiro

Tomar está um frenesim. E não falo do aumento de turistas, das esplanadas que se vão enchendo pela cidade, dos eventos que vão desfilando tanto na cidade como nas aldeias. Falo do investimento em Tomar de grandes superfícies, como o Pingo Doce ou o Lidl, isso sim, um indicador objetivo.

Quando vou a Inglaterra, se posso, vou a Stratford-upon-Avon, que é a terra natal de Shakespeare. É uma cidadezinha que continua a atrair, diariamente, uma chusma de gente, entre turistas e estudantes, que se passeia entre a casa onde dizem que o Shakespeare nasceu e o teatro (Royal Shakespeare Company) e as lojas de produtos shakespeareanos e as livrarias com livros de e sobre Shakespeare e os pubs com imagens de Shakespeare ou de peças dele e outras invenções turísticas do género.

Aparentemente aquela terra vive da atração que o Shakespeare exerce sobre as pessoas e eu sou só mais um exemplo da sua eficácia.

E o que é espantoso é que o homem só escreveu 39 peças de teatro e há 400 anos (6 das quais feitas pelo Fatias de Cá: Hamlet, A Fera Amansada, Sonho de uma Noite de Verão, A Tempestade, Richard III e Lear).

Mas, dizia eu, o homem, tenha ou não sido ele a escrever as 39 peças de teatro, continua a gerar um interesse generalizado e a vender todos os dias.

Ora, comparar Stratford com Shakespeare e Tomar com os Templários é um exercício óbvio. O que falta em Tomar para conseguir, como Stratford, atrair tanta gente?

Fora de brincadeiras: se vivêssemos não sei onde e soubéssemos que existe uma cidade chamada Tomar, no coração de Portugal, com boas acessibilidades, que se assume como cidade templária, e estivéssemos dispostos a vir do fim do mundo para a visitar, o que é que gostaríamos de vir aqui encontrar para levarmos de volta uma memória dos Templários e da sucedânea Ordem de Cristo, a executora do desígnio templário de “se mais mundo houvera lá chegara”?

É a resposta a esta pergunta que vale milhões de euros.

ps: quem não sofre de frenesim são os serviços camarários responsáveis pelos “mupis” iluminados: pelo menos dois deles, um em frente ao antigo Liceu e outro junto aos correios, continuam a divulgar a comemoração dos 725 anos da Universidade de Coimbra que terminou em dezembro passado…

segunda-feira, 20 de junho de 2016

A VIDA É AGORA UM FRENESIM

António Alexandre

A vida é agora um frenesim, o tempo em que os dias, os meses e os anos demoravam a passar já foi, é agora coisa do passado.
O tempo em que nós esperávamos por determinadas horas do dia, fosse da chegado dos jornais da manhã ou da tarde a Tomar, vindos de Lisboa no comboio, para sabermos o que se passava em Portugal e no mundo, fosse pelo noticiário da noite na RTP é coisa do século passado.
Hoje é um frenesim de informação ao minuto, nem temos tempo de digerir uma informação logo temos outra e outra, seja de um tiroteio no EUA, seja na UE, seja de uma bomba na África ou na Ásia.
Tanta informação nos é dada, que dou por mim a interrogar-me, se agora temos mais ou menos informação, querendo com isto dizer que se toda esta quantidade não esconde e até desvaloriza aquela que terá mais interesse, sobre o país e sobre a nossa comunidade mais próxima, o concelho a nossa região.
Julgo eu, que a quantidade nos retira tempo para a coisa local e a necessária reflexão do local, nisso englobo na culpa o frenesim em que atualmente vivemos.
Frenesim que nos leva nos momentos sem nada que fazer (poucos e escassos), a deixar de ver e acompanhar os eventos locais e até regionais.
Que nos leva para a interrogação, se agora quando temos mais e melhor oferta informação, se isso corresponde a maior e melhor qualidade de vida. No meu entender não, e ainda por cima estamos sujeitos a uma grande manipulação da informação, pois os média, por isto ou aquilo, fazem em muitos casos trabalho de manipulação politica e de massas, com intenção de manter a malta desperta a umas coisas, desconhecedora de outras, ou mesmo desinteressada de outras.
Assim também a muita atenção à informação que não diariamente, tem como consequência ausência de tempo para a análise, troca de pontos de vista e aferição das primeiras ideias, retiradas da informação que nos dão.
Como consequência do frenesim e pressão que agora vivemos, também foi diminuído o tempo de convívio para a conversa que noutros tempos era possível e nos permitiam ter sobre as coisas uma outra ideia e atitude, valorizando também muitas coisas que hoje desprezamos, que permitiam ter ideias próprias ao contrário das ideias feitas e formatadas das agências de informação, que agora se ocupam de fazer opinião e de conter as populações na “ordem”.
Claro que tal como o frenesim que afeta muitos, sem disso se darem conta, tudo o resto de que falei será igual, pois felizmente ou infelizmente muita gente em nada é por estas coisas afetada, pois julgando e mesmo pensando que o mundo começa e acaba neles próprios, vivem na felicidade de quem não precisa dos outros ou não é afetado pelo comportamento dos outros. E será assim?


domingo, 29 de maio de 2016

QUESTIONÁRIO: QUE TIPO DE CONDUTOR(A) TOMARENSE É VOCÊ?

   Rui Ferreira

Q- Habita e trabalha em Tomar. Pela manhã desloca-se de casa para o trabalho:

1 - A pé. Acorda mais cedo, faz exercício, leva os miúdos à escola e faz as compras com calma ou numa ocasião posterior.
2 - De carro. Indo a pé não teria tempo de beber um café e falar com os amigos. Além disso tem os filhos para deixar na escola, compras para fazer à hora de almoço ou logo após o trabalho.

Q- Quando circula de automóvel na cidade e precisa de ir, por exemplo, ao banco, ao café ou à padaria estaciona:

1- Num local de estacionamento apropriado onde não atrapalha o trânsito automóvel nem a segurança dos peões.
2- Na rua, em segunda fila, com o veículo fechado à chave, sem sequer ligar os quatro piscas. Não tem problemas em estacionar junto às passadeiras, pois enquanto sai do seu carro e abre a porta, como se fosse uma estrela de Hollywood, os outros condutores abrandam sempre.

Q- Quando usa uma zona de parquímetros, estaciona num lugar vago e seguidamente:

1- Desloca-se ao parquímetro e paga o suficiente para o tempo que calcula necessário. Volta ao carro, deixa o talão comprovativo e vai à sua vida.
2- Não mete moeda no parquímetro. É só um bocadinho. Ninguém vai notar. No tablier do carro está um talão da semana passada que passa bem por válido.
3- Evita os lugares disponíveis, fica na berma ou atrás dos veículos estacionados no parque taxado e liga os quatro piscas. O seu estacionamento é uma emergência que, naturalmente se sobrepõe à vida de todos os otários que usam parquímetros.

Q- É cliente de um estabelecimento da Av. Cândido Madureira. Quando ali vai às compras, estaciona:

1- Num local de estacionamento apropriado onde não atrapalha o trânsito nem a circulação dos peões, normalmente na Várzea Grande ou numa artéria adjacente.
2- Num dos locais de estacionamento reservados à PSP, a deficientes ou a cargas e descargas. São lugares mágicos e toda a gente sabe que Tomar é uma cidade mística.
3- Em segunda fila, apesar de, na faixa de trânsito contrária, já se encontrar outro veículo estacionado em segunda fila. Você sabe que nesta rua a polícia não atua assiduamente e ainda se lembra de que antigamente esta rua era tão larga que até tinha um passeio ao meio.


Q- Na Alameda Um de Março, perde a oportunidade de estacionar num lugar vago, ocupado nesse mesmo momento pelo veículo de alguém que entra de seguida numa loja. O que faz:

1- Procura outro lugar de estacionamento vago, nem que esteja bastante longe.
2- Buzina violentamente, pois considera que aquele lugar era seu.
3- Estaciona na faixa de rodagem, “trancando” o veículo que estacionou há poucos segundos, pois tem a certeza absoluta que aquele condutor irá demorar mais tempo que você.


Q- Quando vai, de carro, levar ou buscar os seus filhos à escola, estaciona:

1- Num local disponível, mesmo afastado do edifício da escola. É bom andar a pé e o caminho de regresso ao carro constitui sempre uma oportunidade de encontrar e falar com outros pais ou colegas dos seus filhos.
2- A menos de 20 metros da porta da escola, em cima de um passeio, num lugar reservado a deficientes, em segunda ou terceira fila, etc. A segurança dos seus filhos é fundamental e nada irá opor-se à tranquilidade de receber as suas crianças sob um coro de buzinadelas.


RESULTADOS (soma dos números das suas respostas)


6 a 8 - Parabéns!
A sua atuação é considerada civilizada e socialmente relevante. A sua saúde agradece e os seus filhos gostam de caminhar consigo por Tomar.


9 a 11 - Tenha paciência!
Você é uma vítima da anedótica gestão rodoviária de Tomar. Que começa em coisas tão simples como os horários de operação das máquinas dos serviços urbanos nas ruas da cidade, passando pelo incompreensível tardar do programa de parquímetros, pelo anedótico estado geral dos pisos rodoviários até à constatável desistência, por parte da polícia, em punir imediata e assiduamente os condutores sem consciência cívica.


12 a 15 - Lamento!
Você vive na ilusão de que Tomar é uma aldeia do faroeste. O que você deseja é, exatamente, atar os arreios da besta do seu carro à porta de um saloon, para nele entrar aos tiros.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

CENTRO HISTÓRICO DE TOMAR SEM TRÂNSITO? SIM OU NÃO?

  Carlos Carvalheiro

Para ir direito ao assunto, o que eu acho é que não devia ser permitido o trânsito de carros no Centro Histórico de Tomar, a exemplo do que acontece na Corredoura.

Tenho consciência que este assunto não é consensual, ainda hoje muita gente acha que foi uma má opção fechar a Corredoura ao trânsito, mas compare-se a rua Infantaria 15 com a rua Silva Magalhães, vai uma para a esquerda e vai outra para a direita no topo da Corredoura (porque raio lhe chamaram Serpa Pinto é que eu gostava de saber…).

Ambas tinham trânsito, até que a rua Silva Magalhães levou empedrado novo, ao tempo da Câmara Paiva, que foi também, por sinal, quem fechou a Corredoura ao trânsito. As esplanadas florescendo, as casas comerciais abrindo e a rua ganhou gente que passa devagar, como que a passear. A rua Infantaria 15 continua com o trânsito a passar, os minusculos passeios obrigam os carros a fazerem gincanas quando se cruzam com os peões e a fazer manobras dificeis quando entram pelas ruas perpendiculares, há várias casas comerciais, e das grandes, fechadas e as pessoas passam com pressa de sair da rua.

Bom mas opiniões são opiniões e cada qual tem direito à sua e aquilo que me levou a falar sobre o assunto foi a lembrança de uma iniciativa com uma certa piada que foi promovida quando eu fui presidente da Nabantina: o “Tribunal da Nabantina”. O conceito era simples: identificava-se um assunto polémico, arranjavam-se “advogados” que defendessem cada um dos pontos de vista, convidavam-se pessoas para fazerem de “júri” e dava-se o papel de “juiz” a uma figura de “peso”.

Na primeira (e única) vez que o “Tribunal” nabantino se reuniu, pelo início dos anos 90, o “juiz” foi Manuel Machado, advogado muito conhecido em Tomar a que se juntava o seu gosto pelo teatro (que não foi dispiciendo numa iniciativa do género) e o assunto em discussão era “Fechar a Corredoura ao trânsito: Sim ou Não?”

O resultado foi um empate. Coisa que veio a ser levada a peito pela Câmara da altura: empatou o fecho da Corredoura até ao fim do mandato.

Mas uma dúvida persistiu no meu espírito: se o Sim ganhasse, teria a iniciativa civil conseguido apressar o fecho da Corredoura?

E se se organizasse outro “Tribunal Nabantino” para deliberar sobre “Fechar o Centro Histórico de Tomar ao trânsito: Sim ou Não?”

terça-feira, 19 de abril de 2016

ESPARTILHAR NA ÁGUA

Mário Cobra

 Vamos lá então a uma lambuzadela sobre o tema da nossa caríssima água. Caríssima porque cara. Para os deístas, Deus, supremo criador, certamente formou os rios. Talvez porque deísta, um dos nossos recentes autarcas tomarenses, perante a passagem à situação de pensionista do último guarda-rios, terá decidido “Se Deus criou os rios, pois Deus que os limpe”. Assim foi extinto o cargo. O rio Nabão ainda não foi extinto. 
  Recuando a aguados primórdios, na opinião dos crentes o banho original terá sido tomado pelo Adão e Eva, decerto nus, ainda não existiam vestes nem comissões de censura. Andando que temos de ir fazer o almoço, a água já está aquecer no fogão, ao longo dos séculos e séculos ámen Jesus a água dos rios e dos poços foi regando sementeiras, lavando bochechas. Construíram-se represas, azenhas. Por volta de 1160, mais coisa, menos coisa, por cá D. Gualdim Pais subiu o morro, olhou o rio e disse “Vamos aqui tomar um banho”. Podia ter sido a origem do nome da cidade. Pelo visto, não foi. Vai daí os Templários mandaram construir um castelo e certamente o pessoal dedicou-se à pesca. Então o peixe sabia a peixe. Além das cavalgadas templárias, acreditamos que então existissem as caldeiradas templárias. Adiante que a água já está a ferver no tacho do almoço. Mais açudes, mais artefactos, mais banhos no rio, anos 50 do século passado a barragem do Castelo do Bode valorizou a retenção da nossa água, neste caso do rio Zêzere, fluindo a produção de electricidade. No final dessa década, sabe-se lá por que carga de água, foi necessária uma manifestação para impedir que o precioso líquido da nascente do Agroal fosse desviado para a abastecer Fátima. Admita-se que roubar um rio seria então tão insólito como agora prever a falência do BES por falta de liquidez. Entretanto, os poços da Mendacha foram e são manancial no florescer do abastecimento de água ao domicílio. 
 Vai daí ao caso, agora a água está caríssima, assim como a energia eléctrica. Os Serviços Municipalizados de Tomar obtiveram lucros superiores a 500 mil euros em 2015, pagando os munícipes das águas mais caras do país, assim como a EDP previa lucros de 900 milhões. Assim sendo, a água é uma boa mina, é só os serviços abrirem a torneira dos preços.
  Entrementes, a água borbulha no tacho, vamos cozer as batatas e uma posta do cherne da questão. Também há o vinho. Não se esqueçam de lavar sempre as mãos antes das refeições e depois de tossicarem por causa das gripes.
              

sábado, 16 de abril de 2016

A FABULOSA FAUNA AQUÁTICA DE TOMAR

 Rui Ferreira


 Serpenteando por uma idílica paisagem verdejante, o rio Nabão encerra mistérios que apenas os naturalistas mais experientes podem aquilatar. As suas águas duras, que desde a Serra de Ansião vão solvendo as rochas jurássicas, chegam calmas a um vale outrora pantanoso. Aqui vivem várias espécies de animais. 
  Ao olhar mais distraído surgem espontaneamente os castores, as lontras e os peixes. Estas são as principais espécies e, portanto, os atores desta fantástica história.
  Durante séculos, castores e lontras têm disputado o poder no Nabão. Os peixes, uns maiores outros mais graúdos, vivem do que apanham a boiar, lutando encarniçadamente por algum naco de alimento, sofrendo com o estio no caudal do rio, condenados à sua condição aquática, abrindo e fechando a boca, como se comer e respirar fossem a mesma coisa.
  Os castores são um género de roedores cujos incisivos ganham uma cor alaranjada. Detestam ser apelidados de ratos de água e rejeitam qualquer comparação com os seus primos do esgoto ou dos campos. A principal ocupação dos castores é construir. Têm tanto empenho nisso que chegam mesmo a destruir para a seguir fazer a sua obra. É a sua natureza. 
  As lontras, por seu lado, têm um modo de vida mais descomprometido. Ao contrário dos castores, não são monógamas e aproveitam qualquer buraco para fazer ninho. Não são construtoras, gostam mais de passar o tempo em atividades lúdicas, como a natação artística, assobiar ou mesmo cantar. Também as lontras escondem um segredo: são primas das doninhas.
  A nossa história vai encontrar os bichos nabantinos reunidos junto a uma ilha do rio. Tinham passado 52 luas e os peixes, cansados de tanto tronco cortado, tanta represa e tanta confusão, ficaram emocionados com os assobios graciosos das lontras e escolheram nadar para a margem esquerda. Este era, já há muitos anos, o modo como os peixes escolhiam os seus soberanos. Nadavam desvairadamente para uma margem ou para outra. Desta vez, ganharam as lontras. 
  Nos montes, junto aos regatos dos pinhais, as doninhas festejavam com escaravelhos suculentos. As ratazanas, iradas, refugiavam-se nas tocas húmidas onde tinham guardado alguns mantimentos.
  A maioria dos peixes tinha rumado à margem esquerda, não só por estar cansada dos castores, mas também porque as lontras, do alto da ilha do rio, lhes tinham dito que iriam resolver o problema dos lagostins! Como todos sabemos, as lontras adoram lagostins. O lagostim, apesar de ter uma casca dura, sempre é mais acessível que o berbigão ou a amêijoa, cuja casca tem de ser partida com ferramentas. Acontece que os peixes andavam incomodados com os lagostins e certos barbos gritavam mesmo, a guelras abertas, tratar-se de uma infestação!
 Os castores, com tanto engenho e arte, nunca conseguiram resolver o problema e os lagostins, coitados, encravados entre a terra e a água, apenas conseguiram que os castores lhes oferecessem uns troncos de madeira. Pudera! Com dentes daquele tamanho, também eu arranjava troncos, pensou o velho lagostim do bigode.
  As lontras, uma vez no poder, cantaram em uníssono um hino, misto de assobios e gemidos de satisfação. Os peixes que tinham nadado para a margem esquerda ficaram entusiasmados. Algumas bogas e bordalos comentavam entre si que agora, com o rio mais limpo, poderiam nadar tranquilamente sem serem incomodados com os paus aguçados e a água turva dos castores. 
  Porém, a sorte dos peixes nunca é grande. As lontras do Nabão, além dos carreiros nas ervas, só sabem marcar o território com pequenos dejetos, colocados estrategicamente em pontos altos. As suas mãos têm barbatanas escondidas e não garras. A sua imagem de marca é a rapidez e a graciosidade, não a eficácia. Por isso, como o assunto dos lagostins nunca mais tinha saída, alguns velhos barbos fizeram um ultimato às lontras: Ou resolvem o problema dos lagostins, ou os peixes deixam de alimentar as lontras!
  No ninho das lontras a azáfama era sempre grande, são uns bichos que não conseguem estar quietos. Quando estão juntas têm a tendência de se morderem umas às outras. Não são mordeduras fatais, mas antes manifestações gregárias de autoridade. Claro que os peixes, mesmo tendo as orelhas pequeninas, debaixo de água, escutam tudo!
  Assim, o cardume pôs-se à escuta e, entre guinchos e mordidelas, ficou a saber que as lontras nunca iriam tratar do problema dos lagostins. Entretanto, a notícia espalhou-se. Toda a bicharada ficou ciente do logro das lontras. Os castores começaram imediatamente a afiar os seus paus, procurando mostrar serviço e não cuidando que, mais uma vez, a sua falta de graciosidade poderia ferir os peixes. 
  Um pato, sobrevoando o vale, tinha visto o rio, as margens, a ilha, os paus e as construções dos castores, os carreiros e as marcas das lontras e os lagostins encardidos na margem. Pousou junto aos peixes e disse: Amigos peixes, cada um acredita facilmente, no que teme e no que deseja.


domingo, 10 de abril de 2016

TOMAR É O QUE?

António Lourenço dos Santos

A cidade já teve várias qualificações, que foram criadas para servir de mote a varias governações. Foram tentativas certamente bem-intencionadas de criar uma “marca”, que pudesse cunhar um desígnio para Tomar e imprimir um rumo ao desenvolvimento da cidade.
Recordamo-nos de 2 dessas marcas: Cidade Jardim e Cidade Templária. Que é feito delas?
A Cidade Jardim, apreciada à luz do presente, foi iniciativa falhada e infrutífera.
É que de jardins, estamos falados. Já houve, não há. Tivemos jardins-montra, jardins-lazer, jardins-convívio. Jardins de orgulho. Organizados, embelezados com flores, com arruamentos, ordenados e limpos. E havia jardineiros.
Hoje, há espaços desordenados-descuidados-degradados. O Mouchão, até tem uma picada por arruamento central. Espaços com erva onde já houve relva, restos de relva onde já houve flores, ferros onde já houve bancos, algazarras onde já houve musica, tendas onde já houve sombras, degradação onde já houve orgulho e harmonia. A Mata dos Sete Montes, um susto de degradação, por todo o lado. Uma ala central desprezada, arruamentos abandonados, floresta descuidada. Uma desilusão de desaproveitamento e de abandono.  O jardim da Várzea Pequena, sobrevive parcialmente, apesar de anémico. O da Praceta Raul Lopes, para fazer de conta. E outros…que mostram o falhanço do mote e a quase falência dos serviços municipais de parques e jardins. No presente, a originalidade é termos a tentativa de transferir os jardins para os passeios…

E a Cidade Templária, existe ou falhou também?
Desde logo, pouco se dá a conhecer, para alem de cruzes da Ordem de Cristo em bom tempo implantadas nalgumas calçadas, e de bandeiras hasteadas em tempo de qualquer festa. E do uso desordenado da “marca” e da cruz, aqui, ali e acolá, desde a pastelaria à agencia de viagens. Também temos uma festa-cortejo com arraiais e farturas à mistura, e benzedura do Vigário, e algumas Associações de extração recente, que reúnem publicas virtudes e vícios privados.
Um acervo monumental que vale por si, um legado histórico e cultural que adormece, uma implantação no território que está desaproveitada. Falta o Conceito, falta a Visão, falta a Competência.

Entretanto, estava esta Opinião em gesta, o Carlos Carvalheiro, (re)lança, ousado como é hábito, a Cidade Cultura. Desde logo, descanso porque esqueceu a sua original visão da Cidade jardim…
Ora bem, avança uma proposta (com 10 anos de idade…) que não é ousada, mas parece, que é muito sensata e que tem visão. Não é ousada apenas porque é natural. Na realidade, Tomar tem muitos elementos, específicos, que podem compor uma identidade completa e abrangente que tenha fundamento na Cultura. E que podem dar alma uma visão de desenvolvimento. Tomar desde sempre teve Cultura, desde os tempos da fundação do Castelo, da Charola e do Convento. E que Cultura! Boa ideia, esta, Cidade Cultural. Cultura abrangente, cultura criativa, cultura visionária. Realidade e Desejo, diz ele, o Carlos C.  Realidade que aspira por competência, digo eu. Utopia, seja. Aspiração, é.

Entretanto também, já surgiu uma quarta marca! E que confusão reina. Mesmo ao terminar deste apontamento, fomos surpreendidos com a criação ad hoc de mais uma marca para Tomar, a da “Feira da Laranja”. Esta, criada pela Senhora Diretora do Convento de Cristo, que afirmou, segundo consta da imprensa, que “este evento já é uma marca da cidade de Tomar…”. Está bonito…se a malta do vinho e do azeite se lembra…
Certo é que a cidade anda como um barco à deriva. Não está preparada para enfrentar ventos e tempestades, como bem se tem visto. O leme está desgovernado porque não tem rumo definido. Será esse o primeiro passo a dar para parar a deriva. Dar rumo. E desde logo, preparar a rota, renovar a frota, e organizar a equipagem.

domingo, 3 de abril de 2016

TENHO PENA, MAS TAMBÉM CULPA...

  Rui Ferreira

  Quando era criança acalentava, naturalmente, opiniões acerca das coisas do mundo.
  Lembro-me que uma delas era sobre os encostos de cabeça nos automóveis. Para mim, esses apêndices almofadados no topo dos assentos só poderiam servir para simular a presença de pessoas dentro do habitáculo, afastando os ladrões e garantindo assim a segurança dos veículos.
  Uma outra relacionava-se com a televisão: Eu afirmava a pés juntos que as motocicletas, mesmo passando ao longe, provocavam interferências na emissão e causavam uns riscos ondulados na imagem.
  Mas havia mais!... Ó se havia! No entanto, choques elétricos, cabeças partidas e outras experiências da vida, foram constituindo oportunidades para ajustar a minha opinião acerca de muitos assuntos. Em suma, o delicioso exercício da tentativa e erro, o doloroso raciocínio ou mesmo a pragmática aceitação da opinião de outros moldaram, e moldam, a minha “maneira de ver as coisas” 
  Hoje em dia, apesar de aturados cálculos e experiências, não tenho total certeza de que a luz do frigorífico se apaga quando fecho a porta. No entanto admiro todos aqueles que não têm dúvidas. De facto, tanto nas ciências exatas como a demografia, até às ciências humanas como a história ou a política, constato haver gente que não sofre de dúvidas. São cidadãos que atingiram o “olimpo da razão”.   
  Entretanto a “meia idade” tem-me possibilitado observar alguns fenómenos humanos cíclicos que radicam, não só na ignorância do percurso dos nossos antepassados, como também na falta de humildade que certos idealismos inflamam.
  Não querendo, de modo algum, concretizar a minha anterior afirmação, sinto simplesmente pena que, neste pequeno concelho, se vislumbrem tão poucos entendimentos.
  Li um livrito que acabava assim: “Uma vida de homem só se justifica pelo esforço, mesmo desafortunado, de melhor compreender. (…) Quanto mais eu compreendo, mais amo, pois tudo o que se compreende está certo”
Quão banal seria o mundo dos homens se todos tivessem o conhecimento e a consciência de tudo?



sexta-feira, 1 de abril de 2016

REFUGIADOS CÁ DENTRO

António Alexandre

  O Refugiados não vem para Portugal, é uma frase que me levou a olhar para este assunto de modo diferente do que a maioria, que preocupando-se com as dificuldades reais de incalculável número de pessoas desalojadas, pela guerra nos seus países, se esquecem que cá neste paraíso à beira mar plantado, existem na verdade muitos milhares de pessoas a viverem pior ou como os refugiados.
Nasceram em Portugal e sempre cá viveram,  em condições deploráveis, sem os mínimos de qualidade para viverem, nas margens da exclusão social e do próprio Estado. Sem as condições mínimas de vida, emprego, casa, luz, água, etc.
  Quando me deparei com a luta de uma mulher, que só pretendia ter luz eléctrica na sua casa e da restante família, julguei que com algum esforço da minha parte conseguisse ajudar a resolver essa questão, que me parece simples. Engano meu, passados vários meses nada acontece, só muros de surdos.
  O Estado faz vista grossa, entra a normal burocracia, que nos come impostos sendo da maior inutilidade e algumas outras entidades, fazem de conta que ajudam as pessoas, mas na verdade pouco mais fazem do que distribuir alimentos, que outros lhes  dão e as entregam para distribuir. . Existe muita insensibilidade nas organizações de assistências do estado, que as torna incapazes de ir mais longe e aos problemas.
  E muito faz de conta, que não vai ao fundo dos problemas e muito menos abre caminhos para as soluções e a dignidade das pessoas. As entidades vão fazendo vista grossa, sem irem no caminho das soluções, como é normal no Portugal real.
  Quando catorze cidadãos vivem na estrada de Bexiga Freguesia de Paialvo, concelho de Tomar, sem electricidade da EDP, mas conseguem ter dois contadores de água e pagar esses consumos todos os meses aos SMAS, quando os miúdos á noite para estudarem têm de o fazer a candeeiro a petróleo, não podem ter um frigorífico ou ver uma televisão, no ano de 2015, o que é isto senão refugiados portugueses a viver em Portugal.
  Quando uma mãe não consegue que um seu filho doente, tenha a devida medicamentação, porque não tem electricidade em casa, embora a queira pagar, como paga a água. O que é que esta gente pode pensar sobre o estado e o pais em que nasceu, em que muita gente se mobiliza para ajudar os outros, mas nada faz pelos que moram ao seu lado.
  Quando vejo e sobretudo oiço falar dos graves problemas dos refugiados e vejo tanta gente e bem, interessar-se pelos ajudar, interrogo-me, se os nossos concidadãos por estarem tão perto não merecem igual preocupação e ajuda. É muito faz de conta, esta sociedade portuguesa actual.
  Claro que só vejo uma forma de ajudar esta gente, é chamar a SIC a TVI e a RTP, talvez assim a solução apareça finalmente
 Talvez assim o sistema funcione e esta dúzia de cidadãos portugueses, deixem de ser refugiados na terra em que nasceram.

quarta-feira, 30 de março de 2016

TOMAR É MESMO UMA CIDADE CULTURAL?

Carlos Carvalheiro 

 Há mais de dez anos (2003 Set 27) escrevi este texto para ser lido na Rádio Hertz. Pergunto-me se será útil relembrar-me dele…
 Tomar é mesmo uma cidade cultural?
 Tem sido cada vez mais veiculado que Tomar é uma cidade cultural. Eu próprio tenho ajudado a divulgar esse conceito. Mas aqui para nós, que ninguém nos ouve, corresponderá isso a uma realidade ou a um desejo?
 Há uns anos (e falo de 20 anos), quando começou a haver uma variada ativação de manifestações culturais em Tomar, era audível na cidade a opinião de que a cultura estava ligada aos comunistas e que, portanto, os verdadeiros motivos de quem desenvolvia actividade cultural, eram outros e naturalmente mais sombrios. O tempo demonstrou que essa opinião estava errada: quem se dedicava e dedica às actividades culturais é bem pior e mais persistente que essa rapaziada crente que um muro como o de Berlim é um garante de liberdade.
 Porque, contrariamente a estes, que pretendiam uma organização social centralizada no Estado, moralista e moralizadora do comportamento do cidadão, enquanto forma de regular e regulamentar a sociedade, os activistas culturais têm conseguido fazer mover o poder local, sem dúvida a reboque, mas a mover-se, no sentido de tornar Tomar numa cidade cultural, ou seja, diversa, ecuménica e potenciadora da melhoria da qualidade da vida, material e espiritual.
Claro que isto, dito assim, poderá provocar o comentário de que presunção e água benta cada um toma a que quer. E, no entanto, esses que se posicionavam contra a actividade cultural, e alguns há ainda vivos e vivaços, já não se atrevem a dizer em voz alta ou a escrever por outras palavras que quem anda nisto da Cultura ou é comunista ou paneleiro ou puta ou drogado ou tudo junto.
 Hoje em dia fica bem falar bem da Cultura. E ainda bem.
 Só que os senhores que mandam nisto, e estou a falar dos que foram eleitos, levam anos de atraso neste assunto da Cultura. Já perceberam que a questão cultural é incontornável em Tomar. Mas insistem em não se envolveram paritariamente com quem anda no terreno e olham para a Cultura como uma ferramenta ou um trampolim ou um meio para o exercício do poder. Ainda falta o seu tempo até perceberem que a Cultura é um fim e é o Poder que é uma ferramenta ou um trampolim ou um meio para o atingir.

 E então, Tomar cidade cultural é uma realidade ou um desejo? As duas coisas. Mas é isso que é bonito nas utopias.

terça-feira, 29 de março de 2016

PALAVRA DE HONRA

 António Pedro Costa 

 Quem já não ouviu a expressão “palavra de honra”? Por certo todos nós já ouvimos, já o dissemos. E agora pergunto a quem lê estas palavras, há quanto tempo não ouve tal expressão? Curioso pormenor, curiosa expressão que caiu em desuso, que por um lado causa estranheza, por outro, seguiu talvez um caminho natural na sociedade em que vivemos.
  Se olharmos para o aspecto sociológico da questão, o descostume da expressão “ palavra de honra” demonstra muitos fenómenos a vários níveis, mas principalmente ao nível sociológico. Vivendo tempos conturbados, onde temos um país com uma economia precária, situações financeiras das famílias e das empresas difíceis, é natural que provoque uma crise em vários níveis, e o nível dos valores é por demais afectado.
  Temos vários exemplos na sociedade portuguesa, onde a crise de valores é latente. Basta ligar o televisor das nossas casas, e ver alguns programas que vão para o ar e temos a prova como a nossa sociedade vive, e ao que parece gosta de viver. Tudo aquilo que assistimos através dos ecrãns televisivos é por demais evidente. Não é preciso referir o nome do programa, mas naquilo que consiste certo saberão do que falo. Um programa onde tem como objectivos testar pessoas numa casa, com jogos de intrigas de mentiras tudo por um objectivo, dar entretenimento (?). De referir que é este tipo de programa que dá audiência. Não posso criticar quem vê e gosta deste tipo de programas, mas posso observar que muita coisa corre mal na nossa sociedade quando o número de inscrições de um reality show é superior ao número de inscritos para o ensino superior. 
  No espectro político apresentam-se algumas semelhanças. A classe política está completamente fragilizada, as pessoas estão cada vez mais “desligadas” do debate político e dos políticos, e em boa verdade porque não há palavra…não há honra nas palavras, e não se cumpre! Podemos assim dizer que a classe política está um verdadeiro reality show. Os programas eleitorais mal estruturados e falsas promessas, as promessas feitas que dão a origem a promessas falhadas, e muito importante, os discursos onde se usam as palavras em tom convincente, mas sem HONRA, sem respeito por quem acredita nos discursos convincentes.
  A palavra de honra tem um simbolismo forte. Representa para quem diz, uma forma de transparência. Fazendo uma análise aos “nossos” mundos, quantas palavras sem honra já ouviram? Ou há quanto tempo não ouvimos palavras com honra? São tudo perguntas de reflexão. Toda a veracidade que usamos nas palavras, não deve ter só, apenas a palavra de honra mas todo o acto e prática em si…com Honra!
  Creio que precisamos de numa regeneração dos valores da sociedade. É também tempo de não reclamar só direitos, mas também exigir os deveres. Existe a Carta dos Direitos do Homem, e porquê não existir a Carta dos Deveres do Homem? Seria importante para que talvez a sociedade fosse mais igualitária e mais justa. Por certo, a sociedade evoluiria de uma forma sã, e embora não deixe de ser imperfeita, os maus políticos desapareciam, os maus programas televisivos desapareciam, e talvez houvesse espaço para mais dignidade e mais verdade naquilo que se promete, naquilo que se diz. Os actos e as palavras voltariam a ter honra!

quarta-feira, 23 de março de 2016

TRAGÉDIA EM 3 ATOS

António Lourenço dos Santos

Interrogamo-nos com frequência acerca das causas do declínio económico e social de Tomar.
São produzidas muitas opiniões e existem muitos escritos publicados para responder a esta questão que aflige. Mas afinal podemos poupar-nos à leitura desses artigos. Temos demonstrações ao vivo.
Nestes últimos tempos, assistimos a 3 dessas demonstrações, que ilustram os absurdos que enfraquecem Tomar desde há décadas.

Ato 1. A entrevista da Presidente da Câmara a um Jornal local. Fomos contemplados com um conjunto de lugares comuns, de algumas promessas estéreis que cavalgam o anuncio de uma espécie de obras de regime, e da confissão de uma pretensão intima, a de existir um projeto para Tomar. Qual, não se sabe…mas talvez seja esse o símbolo vazio e descolorido do mandato deste executivo camarário. Tal como de outros, aliás, porque o mal não é (só) de agora. Fica para memoria a incapacidade de apresentar um desígnio condutor para o desenvolvimento do Concelho, e de o valorizar com ações e em atos concretos.     

Ato 2. A farsa do PEDU, que pode ser escolhida como símbolo da capacidade desta Câmara. Não se compreende que a Câmara nos queira entreter com uma designação pomposa (“Plano Estratégico”) para enquadrar meia dúzia de obras sem coerência entre elas. Na realidade está a desperdiçar uma oportunidade única de usar o programa 2020 para se dotar de um verdadeiro Plano que exibisse os eixos e as ações de uma estratégia para nortear o desenvolvimento na próxima década. Uma estratégia para atrair investimentos geradores de empregos, de modo a criar condições de fixação de população em Tomar. Uma estratégia que nos permitisse recuperar alguma esperança. Certo é que a Camara de Tomar arrisca-se a ser uma das poucas que não se sabe o que querem para o desenvolvimento do Município. Tanto pior para os Tomarenses, que continuam a assistir ao declínio da sua cidade…apesar desse PEDU.        
   

Ato 3. A desvalorização sistemática da Oposição, como se para lá das fronteiras desta coligação apenas existisse um vazio de ideias e de pessoas.  E como se a Coligação soubesse o que quer fazer para vencer os problemas principais que existem. Tomar está em declínio, visível no encerramento de Empresas, na perca de Empregos, e no êxodo de população. Não se entende que algumas forças políticas não se queiram ouvir, e não troquem ideias nem discutam opiniões, para vencer esse declínio. Continua a prevalecer a partidarite, em assuntos que têm a ver com o nosso futuro coletivo, e com o futuro das gerações mais jovens.        

terça-feira, 15 de março de 2016

PARA ONDE VAMOS?

António Pedro Costa

Portugal iniciou o processo de divisão administrativa do seu território em 1835. Foram criados 18 distritos, que ao longo dos tempos sofreram alterações. A mais notória foi a extinção do Distrito de Lamego, que deu lugar ao Distrito de Viseu. Desde então, apenas foram extintos os governadores civis, situação levada a cabo pelo anterior governo.
Nos tempos que correm, é perfeitamente discutível e até oportuno discutir as regiões administrativas do país. Como defensor da regionalização, não posso deixar de pensar que a perspetiva geográfica de Tomar, bem como os seus interesses económicos e sociais, devem ser repensados.  Os distritos foram limitados e ordenados consoante as condicionantes da época em que foram criados. As consequências dessas condicionantes têm sido superadas ao longo dos tempos através das comunidades intermunicipais (antigas associações de municípios). Estas promovem um núcleo de municípios, identificados e agrupados por interesses comuns e vantagens económicas, culturais e sociais.
O caso de Tomar, cidade que pertence a uma Comunidade Municipal do Médio Tejo e da qual também fazem parte concelhos do distrito de Castelo Branco (Vila de Rei e Sertã), insere-se num contexto que deve ser muito bem reanalisado.
            Atualmente, graças às novas vias de comunicação, conseguimos estar em Coimbra após 45 minutos de viagem (mesmo pagando caro as portagens) ou em Leiria em mais ou menos o mesmo tempo
Com as novas vias de comunicação, estar em Coimbra após 45 minutos de viagem (mesmo pagando caro as portagens) ou em Leiria em mais ou menos o mesmo tempo, é uma realidade. Este evidência pode ajudar-nos a questionar se Tomar é de facto uma terra ribatejana nos tempos que correm ou não.
A vegetação do seu território, onde o pinhal e o eucaliptal são as espécies predominantes nas zonas rurais do concelho, talvez comprove a identificação da região de Tomar com a parte mais central do país do que com a parte mais para sul/sudoeste (campo semeado e lezíria).   
            Os interesses económicos do distrito de Santarém em pouco se identificam com os do Município de Tomar. Como já referi, hoje em dia, qualquer cidadão tomarense tem facilidade em deslocar-se para Leiria ou Coimbra. Os serviços prestados nestas cidades são muito mais úteis ao cidadão comum tomarense do que propriamente os prestados em Santarém. A título de exemplo, a saúde em  Coimbra.
Quiçá, estas zonas de afluência sejam mais pertinentes e possa existir um interesse económico comum entre Leiria e Coimbra. Isto leva a pensar na zona industrial. Repensar tudo não será o ideal, mas pensar em novos polos industriais nos limites oeste e norte do concelho poderia ser uma forma de atrair investimento e fazer crescer economicamente a região.
A discussão sobre todos estes fatores é importante e é também certo que este tipo de questões terá muita mais importância se existir uma vontade séria em discutir a regionalização. Esperemos que a teoria da descentralização defendida pelo primeiro-ministro António Costa seja debatida no parlamento. O país necessita de consensos nas decisões administrativas e é necessário que os partidos tradicionalmente do arco do poder se aproximem e estabeleçam políticas bem estruturadas quanto à administração do país, possibilitando uma descentralização equilibrada.   
Todos nós podemos refletir e antecipar os resultados da descentralização. Fazer um debate sério e pensar no que, de facto, é o melhor para o concelho de Tomar será um passo importante para um município mais próspero e com crescimento económico. As crises também são oportunidades e, em tempos, Tomar teve a sua influência na região. Repensar como se reganha esta importância é uma responsabilidade que cabe a todos os quadros políticos locais, mas também à sociedade tomarense. O que queremos? 

domingo, 13 de março de 2016

TABULEIROS: PATRIMÓNIO MUNDIAL?

Carlos Trincão

O suplemento Fugas do diário Público de hoje, sábado, dia 11, inclui uma reportagem sobre Valência e as suas “fiestas”anuais: as Fallas de Valência, referindo que as mesmas são festa de Interesse Turístico Internacional e candidatas a Património da Humanidade da UNESCO.
Conheço relativamente bem as Fallas de Valência e considero-as, de facto, merecedoras da distinção universal tal o empenho popular, a organização por bairros, a eleição da “Fallera-Mayor” e o relevo que lhe é dado na cidade desde o momento da sua eleição até ao fim de festa, todo o trabalho em torno dos espantosos monumentos em “papel-carton” que ardem na noite de 18 para 19 de março e que desaguou numa próspera indústria com criativos a trabalharem nas propostas de um ano para o seguinte, as cinco intermináveis procissões simultâneas da “Ofrenda” à Virgem, a multidão de visitantes que entopem os acessos e esgotam os comboios, a estrondosa abertura que parece não acabar e faz tremer o chão com os foguetes e demais panóplia pirotécnica diurna, ao meio-dia em ponto, as “carpas” e as permanentes refeições comunitárias de bairro. E tudo o mais que uma festa tem e não é possível descrever.
A consideração das festas populares como Património Mundial Imaterial da UNESCO só foi possível depois de um processo levado a cabo por várias cidades da bacia euro-mediterrânica, entre as quais Tomar a convite da Representação da UNESCO em Portugal, denominado “Les Fêtes du Soleil”, com supervisão da própria UNESCO, do qual resultou, entre outros produtos, a denominada “Carta das Festas”, na prática a solicitação fundamentada à UNESCO do alargamento do conceito de Património Mundial Imaterial às festas populares.
Este processo decorreu entre 1986, lançado na Presidência de Pedro Marques, e desenvolvido e concluído em 2001, na Presidência de António Paiva.
Depois disso, não houve Presidente da Câmara que não afirmasse que se estava já a trabalhar no sentido da candidatura da Festa dos Tabuleiros a Património Mundial Imaterial, pois que Tomar estivera naquele processo precisamente por causa da sua Festa Grande.
Há relativamente pouco tempo, a Presidente Anabela Freitas voltou a tocar no assunto dizendo qualquer coisa como isto: vamos tratar do processo da Candidatura a Património Mundial, mas antes teremos que conseguir a sua consideração como de importância nacional.
Não estou certamente a ser fiel às suas declarações, pois escrevo de memória. Mas o espírito da declaração é este.
Entretanto o tempo passa. E tenho para mim que cada dia que passa é mais um obstáculo à concretização do que dizem que se pretendem. Sim, porque nesta altura já não tenho certeza sequer se há essa vontade assumida!

Enfim!