APRESENTAÇÃO

“A TERRA DE QUE A GENTE GOSTA” é expressão que nos agrada. É sentida e é profunda, e é adotada como a ideia força de “TomarOpinião”.

Pretendemos oferecer críticas construtivas e diversificadas sobre os valores, as coisas e as atualidades da nossa terra, e não só. Pretendemos criar um elemento despertador de consciências e de iniciativas de cidadania, e constituir uma referência na abordagem descomprometida desses valores, dessas coisas e dessas atualidades.

Queremos, portanto, estimular o debate, de temas e de ideias, porque acreditamos que dele podem resultar dinâmicas de cidadania, que alicercem mudanças que por certo todos aspiramos.

“TomarOpinião” será um blogue de artigos de opinião e um espaço de expressão livre e responsável, diversificada e ampla.

tomaropiniao@gmail.com


Mostrar mensagens com a etiqueta Carlos Carvalheiro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Carlos Carvalheiro. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

CIDADE JARDIM

Carlos Carvalheiro

Muito boa opinião se ouve sobre a beleza dos jardins de Tomar de antanho, praticamente todos ajardinados pelo então presidente da Câmara capitão Oliveira, que veio mais tarde a ser conhecido por general, e a quem se deve o epíteto de “Tomar - Cidade Jardim” (e que o meu amigo Manuel Tereso, quando o conheci numa boleia que ele me deu, denegria dizendo que ele tratava Tomar como se fosse a Quinta dele).

Não me parece que haja desmérito em tratar bem as coisas as coisas públicas. Nem em tratar com cuidado os nossos jardins. Mas os belos jardins que temos na memória e que tantos elogios nos mereciam, foram idealizados para uma cidade pequena, com cerca de 20 mil habitantes, numa altura em que o turismo era incipente.

O mundo mudou.

Hoje o turismo movimenta, para Tomar, muita gente. E com tendência para aumentar. Por isso, o conceito de “jardim” precisaria de ser ampliado, também em área. Se quisermos falar em “jardins”, já não nos podemos limitar ao da Várzea Pequena ou ao do antigo Mouchão. Temos de pensar em espaços verdes, para a esquerda e para a direita, do Açude de Pedra a S. Lourenço.

Com uma frente de rio destas, qualquer turista nos voltaria a reconhecer o epíteto de Cidade Jardim.

sábado, 12 de novembro de 2016

AgroALL, RepúblicAALS & ETC


Carlos Carvalheiro

entre setembro soalheiro e novembro tardio de 2016

Tinha eu um artigo do blog do mês de setembro em atraso, sobre “Património”, tinha pensado em escrever sobre o Agroal, a principal nascente do Nabão que esteve quase a ser canalizada nos anos 60 para abastecer Ourém, quando recebo a sugestão para o mês de outubro, “República” e, porque os bloguistas do Tomar Opinião têm o hábito de responder a todos, recebo no meu mail a resposta do António Lourenço dos Santos à sugestão com: “Por mim, viva a REPUBLICAALS”

E pensei eu: Querem ver que aquele gajo, para dizer bem de “todas as repúblicas” teve a mesma ideia que eu de roubar a graça que o Turismo do Algarve fez ao chamar-lhe ALLgarve e passarmos a dizer, em vez de Agroal, AgroALL?

Mas afinal não. Abri o mail e o que lá estava no fim do “viva a República” era “ALS”, as iniciais do dito.

Fiquei mais descansado por que afinal a minha “graça” sobre o Agroal permanecia, sempre podia dizer bem do dito, eu acho que a gente não dá valor ao que tem aqui na nossa região, umas termas tão boas na principal nascente do rio Nabão, a uns 14 km da cidade, na raia com Ourém, fazemos de conta que aquilo fica longe, esquecemo-nos, não ligamos, desmerecemos, etc… e sem esquecer que até vendem por lá pasteis de chícharo, aquela parece que leguminosa que dá o nome a um festival em Alvaiázere, cuja corruptela poderia ser AlvaiAZAR, mas não ficava lá muito bem. Tal como o EntroncaMENTE, embora aquilo da circulação do trânsito o faça com todos os dentes que tem na boca. No Porto, como são uns “caseiros”, inventaram o “Porto ponto”, que se explica muito bem. Se ao menos fossemos da Figueira da Foz, poderíamos sempre utilizar a ideia do meu amigo João Damasceno que insiste que se devia chamar-lhe “FiGAYra da Foz”, para atingir nichos de mercado, se não interessantes, pelo menos numerosos. Mas o melhor que temos por cá é a graça de “quem vai para Abrantes deixa Tomar atrás”, o que não é bem a mesma coisa. Por CÁ não está fácil…

Tal como com o presente blog… Primeiro que a malta se decida a escrever alguma coisa…

sexta-feira, 29 de julho de 2016

A PENA DE MORTE

  Carlos Carvalheiro

Eu sei que este blog é para opinar sobre de coisas de Tomar, tendo cada um dos bloguistas aceitado escrever uma vez por mês sobre um tema comum, mas, como o tema de julho é o “crime”, puxa-me mais para escrever a pensar na Europa do que no que se passa debaixo das arcadas da Câmara fora das horas de expediente.

E isto a propósito das recentes declarações do presidente da Turquia, que quer reimplantar a pena de morte no seu país. Ouvi-o na televisão a justificar: “Os Estados Unidos não têm pena de morte? Tal como a Rússia? Tal como a China? Porque não poderá a Turquia tê-la também?”

A argumentação não podia ser mais linear. 

E, no entanto, uma das coisas que distingue os Valores da Europa dos de outros países civilizados (países que põem o primado na Lei e que diferenciam Estado e Igreja) é que, primeiro, foram instaurados, enquanto Valores, o tríptico de Liberdade - Igualdade - Fraternidade, resultantes da Revolução Francesa (séc. XVIII); depois foi abolida a pena de morte (séc. XIX), abolição essa de que Portugal se pode orgulhar de ter sido um dos pioneiros; e, finalmente, foi aprovada a Declaração Universal dos Direitos do Homem (séc. XX), que começa, como a maior parte das pessoas sabe, com a célebre «Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos» e que continua com a menos conhecida mas não menos importante «Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para os outros com espírito de fraternidade», declaração essa que, entre outras coisas, ilegaliza o delito de opinião. 

Ora, tendo o presidente da Turquia, na sequência de um putativo golpe de Estado, no mesmo dia e à mesma hora, mandado prender nove mil presumíveis opositores (faz lembrar a prisão de todos os templários de França, na sexta feira 13 de outubro de 1307, ordenada, meses antes, pelo rei Filipe, o Belo), entre juízes, médicos, militares, jornalistas, professores e etc., pelo “delito” de serem opositores, ou seja, por delito de opinião, quer, agora, reimplantar a pena de morte na Turquia, com a intenção clara de exterminar a oposição ao regime sem ser acusado de crime contra a Humanidade.

Talvez se safe deste crime, mas cometeu os dois primeiros: prende por delito de opinião e quer reimplantar a pena de morte. Assim tornará impossível a integração da Turquia na Europa comunitária. 

Ainda bem.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

FRENESIM?

Carlos Carvalheiro

Tomar está um frenesim. E não falo do aumento de turistas, das esplanadas que se vão enchendo pela cidade, dos eventos que vão desfilando tanto na cidade como nas aldeias. Falo do investimento em Tomar de grandes superfícies, como o Pingo Doce ou o Lidl, isso sim, um indicador objetivo.

Quando vou a Inglaterra, se posso, vou a Stratford-upon-Avon, que é a terra natal de Shakespeare. É uma cidadezinha que continua a atrair, diariamente, uma chusma de gente, entre turistas e estudantes, que se passeia entre a casa onde dizem que o Shakespeare nasceu e o teatro (Royal Shakespeare Company) e as lojas de produtos shakespeareanos e as livrarias com livros de e sobre Shakespeare e os pubs com imagens de Shakespeare ou de peças dele e outras invenções turísticas do género.

Aparentemente aquela terra vive da atração que o Shakespeare exerce sobre as pessoas e eu sou só mais um exemplo da sua eficácia.

E o que é espantoso é que o homem só escreveu 39 peças de teatro e há 400 anos (6 das quais feitas pelo Fatias de Cá: Hamlet, A Fera Amansada, Sonho de uma Noite de Verão, A Tempestade, Richard III e Lear).

Mas, dizia eu, o homem, tenha ou não sido ele a escrever as 39 peças de teatro, continua a gerar um interesse generalizado e a vender todos os dias.

Ora, comparar Stratford com Shakespeare e Tomar com os Templários é um exercício óbvio. O que falta em Tomar para conseguir, como Stratford, atrair tanta gente?

Fora de brincadeiras: se vivêssemos não sei onde e soubéssemos que existe uma cidade chamada Tomar, no coração de Portugal, com boas acessibilidades, que se assume como cidade templária, e estivéssemos dispostos a vir do fim do mundo para a visitar, o que é que gostaríamos de vir aqui encontrar para levarmos de volta uma memória dos Templários e da sucedânea Ordem de Cristo, a executora do desígnio templário de “se mais mundo houvera lá chegara”?

É a resposta a esta pergunta que vale milhões de euros.

ps: quem não sofre de frenesim são os serviços camarários responsáveis pelos “mupis” iluminados: pelo menos dois deles, um em frente ao antigo Liceu e outro junto aos correios, continuam a divulgar a comemoração dos 725 anos da Universidade de Coimbra que terminou em dezembro passado…

quinta-feira, 26 de maio de 2016

CENTRO HISTÓRICO DE TOMAR SEM TRÂNSITO? SIM OU NÃO?

  Carlos Carvalheiro

Para ir direito ao assunto, o que eu acho é que não devia ser permitido o trânsito de carros no Centro Histórico de Tomar, a exemplo do que acontece na Corredoura.

Tenho consciência que este assunto não é consensual, ainda hoje muita gente acha que foi uma má opção fechar a Corredoura ao trânsito, mas compare-se a rua Infantaria 15 com a rua Silva Magalhães, vai uma para a esquerda e vai outra para a direita no topo da Corredoura (porque raio lhe chamaram Serpa Pinto é que eu gostava de saber…).

Ambas tinham trânsito, até que a rua Silva Magalhães levou empedrado novo, ao tempo da Câmara Paiva, que foi também, por sinal, quem fechou a Corredoura ao trânsito. As esplanadas florescendo, as casas comerciais abrindo e a rua ganhou gente que passa devagar, como que a passear. A rua Infantaria 15 continua com o trânsito a passar, os minusculos passeios obrigam os carros a fazerem gincanas quando se cruzam com os peões e a fazer manobras dificeis quando entram pelas ruas perpendiculares, há várias casas comerciais, e das grandes, fechadas e as pessoas passam com pressa de sair da rua.

Bom mas opiniões são opiniões e cada qual tem direito à sua e aquilo que me levou a falar sobre o assunto foi a lembrança de uma iniciativa com uma certa piada que foi promovida quando eu fui presidente da Nabantina: o “Tribunal da Nabantina”. O conceito era simples: identificava-se um assunto polémico, arranjavam-se “advogados” que defendessem cada um dos pontos de vista, convidavam-se pessoas para fazerem de “júri” e dava-se o papel de “juiz” a uma figura de “peso”.

Na primeira (e única) vez que o “Tribunal” nabantino se reuniu, pelo início dos anos 90, o “juiz” foi Manuel Machado, advogado muito conhecido em Tomar a que se juntava o seu gosto pelo teatro (que não foi dispiciendo numa iniciativa do género) e o assunto em discussão era “Fechar a Corredoura ao trânsito: Sim ou Não?”

O resultado foi um empate. Coisa que veio a ser levada a peito pela Câmara da altura: empatou o fecho da Corredoura até ao fim do mandato.

Mas uma dúvida persistiu no meu espírito: se o Sim ganhasse, teria a iniciativa civil conseguido apressar o fecho da Corredoura?

E se se organizasse outro “Tribunal Nabantino” para deliberar sobre “Fechar o Centro Histórico de Tomar ao trânsito: Sim ou Não?”

sábado, 30 de abril de 2016

EU NÃO GOSTO DE ÁGUA


  
Carlos Carvalheiro 

 Eu não gosto de água. Do sabor, entenda-se. Por isso nunca bebo água. À exceção de um copinho de água por ano na nascente dos Pegões, antes de começar a “demanda” dos bolinhos, nos Brasões, no 1º de novembro.

  Mas como um blog sério como este em que aceitei colaborar definiu para tema de abril a água, não sei se por causa do “abril, águas mil”, eis-me aqui a desviar-me do triângulo mais “alavancador” que nos rodeia chamado Nabão, Zêzere e Tejo e a focar-me no negócio de milhões que, quando começou, me pareceu o mais improvável do mundo: a água engarrafada. Por aqui se vê o que eu percebo de negócios, pelo menos no que toca a ganhar dinheiro.
  Em praticamente todo o mundo a sul do Trópico de Cancer, um dos fatores de não desenvolvimento é a falta de agua canalizada. Uma comunidade que tem uma fonte, tem um tesouro.
  Em Tomar, a Fonte da Prata, que ficava ali onde é hoje a rotunda na ponte nova, era local de calhandrice. Quando foi estreado, em 1979, o espetáculo “Fatias de Cá com Nini Ferreira” onde se recriaram quadros de revista à tomarense dos anos 30 a 50, lá estava isso retratado.
  E então, até ao 25 de abril, as pessoas iam às fontes buscar água nos cântaros, mesmo quando já tinham água canalizada, porque achavam a água mais saborosa, tendo umas fontes mais nomeada que outras, como era o caso da da Asseiceira ou da de Marmelais (hoje em dia com uma placa —das pequenas, não das grandes— a dizer “imprópria para consumo”, que tristeza, embora a mim de pouco me sirva a informação, que nem que fosse “própria” eu a bebia…).
  Claro que as águas mais famosas do país eram as “minerais” do Luso ou do Vidago e as gaseificadas Carvalhelhos ou Pedras Salgadas. Também havia as das termas, boas para a saúde mas um bocadinho mal cheirosas, não se pode ter tudo. Mas estas nunca se venderam em garrafas. Ao menos que eu saiba. Quem queria águas das termas, tinha de para lá ir fazer os tratamentos. As outras eram vendidas em garrafas de vidro. Até que, neste últimos anos, apareceram as garrafas de plástico e começou um negociozorro: água engarrafada das mais variadas proveniências. E as pessoas passaram a comprá-la aos garrafões e a andar com garrafinhas na mão a bebericá-la. E o velho copo de água deixou de ser usual.
  E assim se passou a vender um produto que a Natureza nos dá e os serviços municipalizados nos fazem chegar a casa para tomar banho e lavar roupa e loiça mas, para beber, toca a beber da garrafinha, que custa tanto como a bica, o que dá mais de 2€ por litro, chegando a custar o dobro ou o triplo em estações de serviço ou em esplanadas armadas ao pingarelho.
  Coitado do Barrela, se ainda hoje andasse a vender água da Asseiceira numa carroça com cântaros, como o fazia nos anos 60. Distribuía a água por diversas casas em Tomar e o negócio corria bem. Ao menos uma vez, tendo vendido toda a água, e para não perder tempo a voltar à Asseiceira para reencher os cântaros, vai de os encher na fonte de S. Lourenço, à saída de Tomar. Foi apanhado. Por isso, quando passava com a sua carroça cheio de cântaros ouvia do passeio “Queres ser rico?”, ao que o Barrela, fazendo o tchh-tchh com a boca, dizia: “Anda macho… anda cabrão…”.




quarta-feira, 30 de março de 2016

TOMAR É MESMO UMA CIDADE CULTURAL?

Carlos Carvalheiro 

 Há mais de dez anos (2003 Set 27) escrevi este texto para ser lido na Rádio Hertz. Pergunto-me se será útil relembrar-me dele…
 Tomar é mesmo uma cidade cultural?
 Tem sido cada vez mais veiculado que Tomar é uma cidade cultural. Eu próprio tenho ajudado a divulgar esse conceito. Mas aqui para nós, que ninguém nos ouve, corresponderá isso a uma realidade ou a um desejo?
 Há uns anos (e falo de 20 anos), quando começou a haver uma variada ativação de manifestações culturais em Tomar, era audível na cidade a opinião de que a cultura estava ligada aos comunistas e que, portanto, os verdadeiros motivos de quem desenvolvia actividade cultural, eram outros e naturalmente mais sombrios. O tempo demonstrou que essa opinião estava errada: quem se dedicava e dedica às actividades culturais é bem pior e mais persistente que essa rapaziada crente que um muro como o de Berlim é um garante de liberdade.
 Porque, contrariamente a estes, que pretendiam uma organização social centralizada no Estado, moralista e moralizadora do comportamento do cidadão, enquanto forma de regular e regulamentar a sociedade, os activistas culturais têm conseguido fazer mover o poder local, sem dúvida a reboque, mas a mover-se, no sentido de tornar Tomar numa cidade cultural, ou seja, diversa, ecuménica e potenciadora da melhoria da qualidade da vida, material e espiritual.
Claro que isto, dito assim, poderá provocar o comentário de que presunção e água benta cada um toma a que quer. E, no entanto, esses que se posicionavam contra a actividade cultural, e alguns há ainda vivos e vivaços, já não se atrevem a dizer em voz alta ou a escrever por outras palavras que quem anda nisto da Cultura ou é comunista ou paneleiro ou puta ou drogado ou tudo junto.
 Hoje em dia fica bem falar bem da Cultura. E ainda bem.
 Só que os senhores que mandam nisto, e estou a falar dos que foram eleitos, levam anos de atraso neste assunto da Cultura. Já perceberam que a questão cultural é incontornável em Tomar. Mas insistem em não se envolveram paritariamente com quem anda no terreno e olham para a Cultura como uma ferramenta ou um trampolim ou um meio para o exercício do poder. Ainda falta o seu tempo até perceberem que a Cultura é um fim e é o Poder que é uma ferramenta ou um trampolim ou um meio para o atingir.

 E então, Tomar cidade cultural é uma realidade ou um desejo? As duas coisas. Mas é isso que é bonito nas utopias.

terça-feira, 1 de março de 2016

UM DE MARÇO, FERIADO MUNICIPAL PORQUÊ?

Porque o Gualdim Pais aproveitou uma das pedras do castelo para lá inscrever que o iria reconstruir, do que resultou o castelo templário que veio a abrigar o burgo de Tomar até o rei D. João III ter deitado as casas todas abaixo e expulsado os que por lá moravam para prender em “gaiola dourada” os frades da Ordem de Cristo.

Bom, mas na verdade o “1 de março” é um feriado tão bom como outro qualquer, porque feriado quer dizer que é um dia de feira ou, como se veio depois a vulgarizar, um dia de férias  (quando os feriados foram inventados, não havia férias, é só desde há algumas décadas que acumulamos a coisa). E sempre é melhor assinalar um castelo que ali está à espera de melhor uso que o que motivava o antigo feriado municipal: a lenda da Santa Iria.

Quem conta bem as histórias (porque há duas versões) da Iria — ou Irene— é o Almeida Garrett em “Viagens na Minha Terra”, quando aproveita para dizer tanto mal de Santarém (corruptela de Santa Irene) por centímetro quadrado que a gente até se esforça por ler o livro até ao fim…

E então a Iria — ou Irene — era uma donzela cá da zona, na altura chamada Nabância, pelos meados do séc. VII. Namorou-se dela o jovem Britaldo, filho do conde que governava estas terras. Um tal monge Remígio terá dado a Iria uma bebida e ela ficou assim como que grávida. Vai daí o Britaldo manda apunhalar Iria por um criado e lançá-la ao rio, cujo corpo vai descendo pelo Nabão, Zêzere e Tejo abaixo até “aportar” à ribeira de Scalabis. No entretanto, um tal abade Célio, teve uma revelação que lhe descobriu a verdade e os milagres do caso e comunicando-a logo aos monges e ao povo de Nabância, saiu com todos e foi por esses campos da Golegã fora até chegar à Ribeira de Santarém. Ai, benzendo as águas do rio, estas se retiraram corteses e deixaram ver o sepulcro que era de fino alabastro, obrado à maravilha pelas mãos dos anjos. Chegaram ao pé do túmulo, abriram-no, viram e tocaram o corpo da Iria, mas não o puderam tirar, por mais diligências que fizessem. Conheceu-se que era milagre; e contentando-se de levar relíquias dos cabelos e da túnica, voltaram todos para a sua terra.

Esta é a história da santa Iria dos livros. A história da santa Iria das cantigas é mais simples: 

A moça vive em casa de seus pais e um cavaleiro desconhecido, a quem dão pousada, a meio da noite, rouba-a e, chegando a um descampado, pretende fazer-lhe violência… A moça resiste e ele mata-a. Dali a uns anos, o cavaleiro volta a passar pelo local e vê uma ermida levantada no sítio onde cometeu o crime; pergunta de que santa é, dizem-lhe que é de Santa Iria. Ele cai de joelhos a pedir perdão à santa, que lhe lança em rosto o seu pecado e o amaldiçoa.

Por que é a santa Iria da trova popular tão diferente da santa Iria das lendas monásticas? Como diz o Almeida Garret, ou houve duas santas com o mesmo nome, ou nos escritos dos frades há muita fabula de sua invenção.

Que o povo goste de cantar romances, vá, é da sua fantasia, abençoado seja… Agora que a Eclesia venere uma história tão mal contada, cá para mim, nem o papa Francisco ia na cantiga…

Para os curiosos, aqui fica o romance popular:

Estando eu à janela coa minha almofada,
Minha agulha d'ouro, meu dedal de prata,
Passa um cavaleiro, pedia pousada.
Meu pai lho negou: quanto me custava!
— “Já vem vindo a noite, é tão só a estrada…
Senhor pai, não digam tal de nossa casa
Que a um cavaleiro que pede pousada
Se fecha esta porta à noite cerrada.”
Roguei e pedi — muito lhe pesava
Mas eu tanto fiz, que por fim deixava
Fui-lhe abrir a porta, mui contente entrava;
Ao lar o levei, logo se assentava;
Às mãos lhe dei água, ele se lavava;
Pus-lhe uma toalha, nela se limpava.
Poucas as palavras, que mal me falava
Mas eu bem senti que ele me mirava.
Fui a erguer os olhos, mal os levantava,
Os seus lindos olhos na terra os pregava.
Fui-lhe pôr a ceia, muito bem ceava;
A cama lhe fiz, nela se deitava,
Dei-lhe as boas-noites, não me replicava;
Tão má cortesia nunca a vi usada!
Lá por meia-noite, que me eu sufocava,
Sinto que me levam co’a boca tapada…
Levam-me a cavalo, levam-me abraçada,
Correndo, correndo sempre à desfilada.
Sem abrir os olhos, vi quem me roubava.
Calei-me e chorei — ele não falava.
Dali a muito longe me perguntava:
Eu na minha terra como me chamava.
— “Chamavam-me Iria, Iria a fidalga;
Por aqui, agora, Iria, a cansada.”
Andando, andando, toda a noite andava;
Lá por madrugada que me atentava…
Horas esquecidas comigo lutava;
Nem força nem rogos, tudo lhe mancava.
Tirou-a do alfange… ali me matava,
Abriu uma cova onde me enterrava.

No fim de sete anos passou o cavaleiro,
Uma linda ermida viu naquele outeiro,
—“Que ermida é aquela, de tanto romeiro?”
— “É de Santo Iria, que sofreu marteiro.”
— “Minha Santo Iria, meu amor primeiro,
Se me perdoares, serei teu romeiro.”
— “Perdoar não te hei-de, ladrão carniceiro,
Que me degolaste que nem um cordeiro.”

Carlos Carvalheiro