APRESENTAÇÃO

“A TERRA DE QUE A GENTE GOSTA” é expressão que nos agrada. É sentida e é profunda, e é adotada como a ideia força de “TomarOpinião”.

Pretendemos oferecer críticas construtivas e diversificadas sobre os valores, as coisas e as atualidades da nossa terra, e não só. Pretendemos criar um elemento despertador de consciências e de iniciativas de cidadania, e constituir uma referência na abordagem descomprometida desses valores, dessas coisas e dessas atualidades.

Queremos, portanto, estimular o debate, de temas e de ideias, porque acreditamos que dele podem resultar dinâmicas de cidadania, que alicercem mudanças que por certo todos aspiramos.

“TomarOpinião” será um blogue de artigos de opinião e um espaço de expressão livre e responsável, diversificada e ampla.

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domingo, 23 de outubro de 2016

TOMAR É A MINHA REPÚBLICA

Carlos Trincão

Tomar é onde a calma das manhãs tem coisas que a pressa dos dias não permite descortinar. É por isso que só às vezes, quando os olhos, o acaso e a Alma se encontram num mesmo instante, vemos o que está sempre à nossa frente...
A minha cidade é uma viagem no tempo que pode começar logo de manhã, quando acordo e olho a silhueta do Castelo. Ali se guardam os antigos segredos templários; e, no Convento e em cada claustro, novas razões para uma atenção redobrada às preciosidades reconhecidas como Património Mundial, onde espreita a Janela do Capítulo, janela do mundo aberta para a cidade e para o mistério. Ou janela da Cidade a abrir caminhos ao Mundo?
Cidade-Jardim, assim também se chama, a dar a certeza de que aqui sempre a Natureza e o Homem viveram em harmonia. Dir-se-ia que as pedras monumentais, a água e as plantas conjugaram esforços para aqui fazer um lugar de sonho que também se descobre nos pormenores, nas janelas e portais, na serena presença dos antepassados, nas mãos do Povo que enchem as ruas de cor e perfume.
A cidade descobre-se logo pela manhã, ao lado do Nabão a imaginar-lhe o cheiro depois de atravessar a cidade de uma ponta à outra debaixo de um sol danado de bom que vem em força entrando de supetão pelas pessoas dentro.
O rio é um poema serpenteante quando atravessa a cidade. E é também Paz, Tranquilidade, Trabalho e Lazer. No centro, envolve a ilha do Mouchão num abraço ritmado pelo chiar melodioso da Roda árabe.
As minhas histórias do (e no) Nabão são quase mais as da vontade de as ter tido do que outra coisa. Algumas houve a bordo – ou fora de borda – daqueles botezecos de remos e aluguer. Houve outras à borda. Mas as que mais se recordam são as estórias virtuais que uma vida sempre sempre ao lado do rio foi criando: um gosto desmesurado pelo Rio, um desejo muito grande de ser parte disto tudo, uma inveja enorme das aventuras no Rio de outros mais velhos que por aqui folgaram na sua juventude.
Chamem-se-lhe socalcos no rio e a imagem é bem conseguida. Antigamente o Nabão podia muito bem ser uma sucessão de espelhos de água que cada açude de estacaria represava. Desciam o rio, alimentando as terras e as indústrias; chegavam a Tomar e continuavam a alimentar terras e indústrias; e prosseguiam depois, voltando a alimentar terras e indústrias.
Com os açudes casavam as rodas de rega, autênticas pontes ligando as águas às terras. Conta “Nini” Ferreira que “a água encaminhava-se para os canais das rodas em forte corrente. Corria e batia nas penas das rodas. Empurrava-as. A frente das penas, atados nas cintas exteriores iam os alcatruzes que mergulhavam, enchiam, subiam, despejavam nos “tabuleiros” e lá seguia a água para o “calheiro real” e, daí, por canos ou aquedutos. E, assim, chegava a água a hortas e pomares.” Ao som de bucólicas chiadeiras e rangidos das madeiras.
As terras eram – e são – férteis à beira-rio. Nem podiam queixar-se da água com que as rodas as refrescavam. E assim era. Roda após roda. Chiadeira atrás de chiadeira.
Açude após açude. Rápido após rápido. Mouchão após mouchão, ilhas de verdes e frescuras entre o rio e o canal. Como o Mouchão do centro da cidade, este agora em versão de substantivo próprio. Atravessa-se o pontão e esquece-se a urbe. Entra-se numa autêntica catedral de recolhimento a que não faltam sequer imensas colunas a suportar românticos arcos góticos de plátanos, ao mesmo tempo tecto e vitral por onde a luz se entremeia com a folhagem.
Águas de Tomar não são só as do Rio. Também o Mar nos percorre as veias desde tempos imemoriais: desde os tempos em que os Papas eram Bispos de Tomar, desde os tempos em que a igreja de Santa Maria do Olival, não apenas panteão templário, foi matriz da grande diocese que foram as terras descobertas e cujo governo espiritual era responsabilidade dos Sucessores de Pedro. Ou ainda desde aqueles tempos em que Gama, o Almirante das Índias, aqui recebeu a dignidade de Cavaleiro de Cristo directamente das mãos do próprio Rei D. Manuel.
Há até quem diga que o Tesouro dos Templários ainda aqui está escondido; outros, que o que aqui esteve foi apenas um nono desse tesouro; um nono que um cavaleiro português ao serviço do Rei Dinis recebera de Jacques de Molay, em Paris, na véspera da prisão do Mestre dos Mestres; um nono do Tesouro Templário que mais não era do que os mapas marítimos que Henrique, o Navegador e Pai dos Descobrimentos, utilizou para reencontrar o Mundo.
Mas isso são sonhos! Apesar de ser um lindo sonho pensar que a parte do Tesouro que nos coube foi o Conhecimento, não é? Aliás, beleza é o que aqui não falta: quando as mãos do Povo acariciam as matérias rudes, o resultado é sempre uma preciosidade, seja para o paladar ou para os olhos, de tal modo que a Arte de florir as ruas prossegue dentro de casa, florindo os lares com as flores da Natureza.
As mesmas flores cujas pétalas celebram Santa Iria, em Outubro: da Ponte Velha, flutuando na água, pintam-se o Nabão e a Memória com pontinhos de cor.
Flores que se repetem na Festa dos Tabuleiros, a Alma dos tomarenses, com o cheiro das flores, do pão e das espigas de trigo nos tabuleiros que vão à cabeça das raparigas vestidas de branco. Uma festa em que todas as artes e devoções se unem num imenso louvor e em que os tomarenses se unem num único e imenso abraço.
É isto que se faz pela manhã: beber a magia desta cidade, uma magia que não se entende porque apenas se sente. Magia feita de Ruas, de Mouchão, de Castelo, de Festa.
De bocados de cidade que já não existem mas ainda se recordam. Afinal, tudo é mais de sentir do que de ver.

E à noite, quando as sombras sussurram mistérios, há sempre uma luz que nos indica caminhos.

domingo, 16 de outubro de 2016

CAMPOS DE FÉRIAS / A MINHA CASA É A TUA CASA

            Carlos Trincão

O tema é República, mas prefiro “Res publica”, isto é, o que é público, a coisa pública. Daí que…
Decorreu este Verão, sob a dinâmica e eficaz coordenação da Filipa Fernandes e dos responsáveis políticos da Junta de Freguesia de Santa Maria dos Olivais e S. João Batista, através do programa JUNTANIMA, um conjunto de semanas de férias educativas e recreativas para jovens e crianças do nosso Concelho. De resto, o mesmo já se passara em anos anteriores, o que merece o meu aplauso e estímulo, se é que a minha palavra tem algum “poder” nesse campo (presunção e água-benta…).
Esta questão é-me particularmente grata pois que, trabalhando com crianças, reconheço a importância e a valia desta iniciativa.
Atrevo-me, portanto, a repescar um texto meu de há 10 anos, apresentado na Assembleia Municipal de Tomar, sobre matéria convergente, PRINCIPALMENTE, para dar mais lenha para a Filipa carregar. as ideias nunca estão a mais e podendo haver maneira de as aproveitar, caso interessem, e juntar vontades, todos ganhamos.
Aqui fica, portanto, o meu contributo sobre esta matéria:

Em 31 de Março do corrente [estávamos em 2006], no âmbito do debate sobre o Regulamento das Férias Desportivas, o Bloco de Esquerda produziu uma intervenção na qual sistematizou um conjunto de ideias susceptíveis de corporizarem o embrião de um processo de criação de Campos de Férias Residenciais em Tomar, intervenção essa que suscitou acenos de simpatia por parte de outros membros desta Assembleia.
Afirmámos, então, que voltaríamos a esta temática em altura que o permitisse fazer de modo mais formal, o que acontece agora.
Tendo consciência de que não compete a esta Assembleia intervir neste aspecto, é, todavia, também, nossa obrigação aconselhar ou sugerir ao Executivo as opções que considerarmos adequadas para o enriquecimento do nosso Concelho, pelo que se sistematiza, de novo, aquele conjunto de sugestões:

1 – Criação de Campos de Férias residenciais susceptíveis de acolher jovens de outros pontos do país e do estrangeiro, salvaguardando desde logo uma quota para residentes no Concelho.

2 – Definição das actividades por áreas de intervenção, temáticas ou generalistas (Desporto, Música, Artes Plásticas, Teatro, Acampamento,...) monitoradas por Associações e Clubes locais.

3 – Concretização destes campos com a intervenção de Mecenas e outros (Ministérios – ou Secretarias de Estado – da Educação, Cultura, Desporto e Juventude, Emprego e Segurança Social).

4 – Possibilidade de participação nestes campos de férias de jovens do Concelho oriundos de famílias de menores recursos financeiros em condições de apoio especiais.

5 – Criação de quotas em todos os programas para filhos de cidadãos tomarenses emigrados.

6 – Divulgação deste programa em cidades com afinidades histórico-culturais com Tomar (Viseu ou Santarém, por exemplo), laços de cooperação, como a Rede Europeia das Cidades dos Descobrimentos (Lamego, Castelo Branco, Coimbra, Porto, Lagos, Lisboa, entre outras) ou as Associações de Municípios da Ordem de Cister e com Centro Histórico.

7 – Promoção deste programa em cidades com que Tomar mantém geminações (Haddera, Vincennes), actividade anterior, como a Rede Europeia das Cidades dos Descobrimentos (com cidades em Espanha, Bélgica, Itália e Holanda), Pontedera e Pisa (Festival Sete Sóis Sete Luas), Galway (Irlanda, Rede das Cidades Médias Europeias) e com as cidades do Projecto Les Fêtes du Soleil (Siena em Itália, Beersheva em Israel, Le Kef na Tunísia, ilha de Gozo – Malta e Versailles).

8 – Criação, com os responsáveis políticos das cidades referidas, de condições para que
jovens tomarenses, ou filhos de tomarenses emigrados, possam aí ter acesso a programas similares.

9 – Lançamento do programa de férias “A minha família é a tua família, a tua família é a minha família”, criando uma rede recíproca de famílias acolhedoras de jovens de outros países.

10 – Criação de um projecto paralelo de promoção de Tomar junto das outras cidades a par do projecto de divulgação dos dois anteriores: Campos de Férias e Famílias Acolhedoras.

Assim, e fazendo a “ponte” entre uma proposta e uma recomendação, como por vezes é sugerido, proponho que esta Assembleia recomende ao Executivo a apreciação dos 10 pontos anteriormente sistematizados.

Tomar, 20 de Abril de 2006

sábado, 24 de setembro de 2016

MATA DOS SETE MONTES: A FLORESTA DAS LENDAS

Carlos Trincão

Nestes dias em que decorrem as Jornadas Europeias do Património, entendi que poderia ser interessante repescar um artigo que publiquei no semanário Cidade de Tomar, em março deste ano. 
Trata-se de uma abordagem em torno do património vegetal que temos em Tomar. 
O que adianto não é de fácil concretização, tais os problemas a contornar. Nem sei mesmo se, ainda que contornando questões de ordem burocrática e outras que tenham a ver com a tutela do sítio para onde defendo a intervenção, seria possível enveredar por tal caminho. De qualquer modo, arriscando a polémica ou a megalomania com que possa ser vista a ideia que apresento, “pela rama”, aqui fica o meu contributo.

A Floresta das Lendas, a concretizar na Mata dos 7 Montes, seria um projecto de animação turístico-cultural em torno das lendas, mitos, fábulas, histórias tradicionais e contos populares, focando a sua actividade na representação e recriação desse Património Imaterial, contribuindo para a animação, recuperação e conservação do lugar, reforçarando a ligação ao Castelo/Convento e enquadrando o imaginário templário como algo a explorar.
Seria um projecto etariamente transversal, que buscaria formas para ultrapassar constrangimentos meteorológicos e incorporaria conceitos como parque temático, campo de férias, acampamento, centro de recursos e recurso educativo, parque de merendas, percursos de lazer e centro de interpretação da Natureza.
Aliar-se-ia a elementos de captação de visitantes, na cidade, como restauração, alojamento e outros, podendo vir a estimular as autoridades para a criação de outros equipamentos de acolhimento, como uma Pousada de Juventude.
Seria um projecto estimulador do crescimento do caudal de visitantes e de criação de emprego, podendo recorrer a empresas e/ou entidades com actividade convergente.
Como as árvores, seria um projecto em crescimento permanente.
A Floresta das Lendas teria percursos para descoberta de lendas, mitos, fábulas, histórias tradicionais e contos populares assentes nos caminhos existentes ou na criação de ligações adicionais, perenes ou efémeras, terrestres ou aéreas (passadiços), utilizando recursos naturais ou construídos pré-existentes, ou a construir de forma sustentável e livre de ruídos ambientais.
Por exemplo, o conto “A casinha de chocolate” implicaria a instalação de um módulo em madeira (cabana), adaptável a outra história ou lenda, sei lá… o “Capuchinho Vermelho”, em rotatividade a definir, pois que seriam aconselháveis esquemas de exploração renováveis, com rentabilização/adaptação dos recursos físicos naturais ou artificiais, conseguindo-se um “parque temático” sempre diferente, logo potenciador de visitas para os mesmos públicos em ocasiões diferentes. E multiplicar-se-iam as cabanas para diversas histórias durante a visita.
Os seres mitológicos (dragões, grifos, unicórnios, sereias, lobisomens, …) traduzir-se-iam em elementos escultóricos auto e inter-activos: em Cracóvia, um dragão deita fogo regularmente ou quando é enviada uma sms para determinado número; ora, pelo mesmo modo bateriam asas do Pégaso, o Minotauro rugiria ou um dragão fumegaria pelas narinas… Pequenas esculturas de duendes, gnomos, fadas e anões propiciariam pistas e informações.
Os desportos radicais convergiriam para a exploração das histórias: parede de escalada para subir à torre da princesa, rappel para fugir do gigante do castelo das nuvens (uma casa numa árvore), slide para um Ícaro a voar e os tanques da Mata seriam fundamentais para lendas com a água por referencial…
Como exploração educativa, a Floresta das Lendas teria um Centro de Interpretação – filmes, música, vestuário, iconografia, informação adaptada ao tipo de visita (individual, grupo, totalidade, ou parte, da oferta…), biblioteca / mediateca, galeria de autores, atividades plásticas, …
A Floresta das Lendas colaboraria com as escolas e com o Ministério da Educação.
A Floresta das Lendas teria recepção, bilheteira e loja, restaurante e café/bar. Não se trataria de cobrar entradas para a Mata, mas sim cobrar entradas para o usufruto das atividades que se escolhessem, em programas pré-definidos e organizados ou, mesmo, para usufruto autónomo tendo por guias aparelhagem adequada, aplicações digitais para telemóvel ou outras soluções.
Em poucas palavras, a ideia seria levar à Mata dos 7 Montes mais um elemento de atração de visitantes, potenciando-a e exponenciando-a com recursos de outra ordem já existentes, como o Centro de Interpretação Ambiental.


sábado, 10 de setembro de 2016

FATIAS DE TOMAR: PATRIMÓNIO PARA QUEM?


Carlos Trincão

Leu-se há poucas semanas na web, nos jornais e ouviu-se na TV que Bruxelas classificou o Pão de Ló de Ovar como produto protegido, sendo o 17.º produto português a receber a designação pela Comissão Europeia com a Indicação Geográfica Protegida (IGP).
Ainda pela Imprensa, deu-se a conhecer a todo o País que o “Pão de Ló de Ovar - e a sua miniatura conhecida por Infantes - é um produto de pastelaria à base de ovos, sobretudo gemas, açúcar e farinha. Apresenta-se dentro de uma forma revestida com papel branco, com o formato de uma 'broa', de massa leve, cremosa, fofa e de cor amarela designada por 'ló'. Tem uma côdea fina acastanhada dourada levemente húmida e com o interior de textura húmida. O produto é confecionado no concelho de Ovar, freguesias de Esmoriz, Cortegaça, Maceda, Arada, Ovar, S. João, S. Vicente e Válega.”
Ainda bem, tanto mais que outros produtos gastronómicos portugueses tinham sido já, anos antes, defendidos e certificados.
Quando li a notícia pela primeira vez, no Facebook, teci um comentário em que a certa altura referia que não é com festivaizinhos de doces conventuais que íamos lá (ou coisa que o valha), isto é, que defendíamos convenientemente e com garra as Fatias de Tomar, o doce tomarense por excelência.
Faz agora (já fez, em fevereiro) 10 anos, apresentei na Assembleia Municipal, em nome do Bloco de Esquerda, uma proposta sobre Doçaria Tradicional assente no Programa Eleitoral e na vertente da nossa Proposta de Plano de Desenvolvimento Concelhio, que aqui me dispenso de referir, na qual, com o triplo objectivo de defender e promover a cultura gastronómica tomarense, reforçar a promoção turística de Tomar e estimular uma dinâmica económica em torno das “Fatias”, se propunha à Assembleia Municipal que sensibilizasse o Executivo para a vantagem da criação de um “momento gastronómico” anual potenciador das “Fatias de Tomar”, se possível ainda durante o ano de 2006, para a vantagem do registo da patente da “panela tradicional” em benefício dos artesãos locais que ainda a produzem e para a criação do “Núcleo da Latoaria” no âmbito do Museu Municipal de Tomar.
Na altura, o PSD, talvez a pensar que se estava a falar de um qualquer assunto perigoso e fracturante da sociedade, inviabilizou a proposta. Mas teve a hipótese de se redimir, em abril do mesmo ano, quando voltei à carga.
O problema foi depois!
Primeiro que o Executivo decidisse dar corda aos sapatos passaram-se eternidades e quando, enfim, a coisa nasceu, apresentada nos Lagares d’El Rey pomposamente, mas sem pompa, e circunstancialmente, mas sem circunstância, dei por a mim a pensar: Caramba… mas não foi nada disto que a Assembleia Municipal aprovou!” Ainda por cima, algo que tinha nascido por causa das “Fatias”, era acompanhado com uma degustação de “Beija-me Depressa”…
De facto, foi criado, à moda de Alcobaça, mas muito mal copiado, um festivalzito de doces tradicionais tomarenses, prolongado no tempo de umas semanas mas sem um momento verdadeiramente catalisador e captador de visitantes. Ainda aí veio a televisão, uma vez, parece. De fugida e no meio de um dos programas de animação das manhãs.
Bem… quando se faz uma coisa a copiar outra, como o festival de Alcobaça, que até tem promovido a criação de novos produtos, fica-se sempre por baixo porque, simplesmente, estamos a copiar e a não dar alma.
Resultado: a coisa ficou, ficou, ficou:
As Fatias ficaram para trás na sua defesa, certificação e promoção. A panela OVAL ficou CIRCULAR. O apoio aos artesãos ficou no papel. E o Núcleo da Latoaria ficou no esquecimento.
E agora que a Câmara já não é PSD, mas de Partidos que aprovaram a dita proposta de há dez anos… deixam tudo na mesma.
Eu sei que as Fatias são uma bomba calórica que deve fazer mal como sei lá o quê e que dá uma trabalheira de se lhe tirar o chapéu. Deve ser por isso que não lhe ligam nenhuma.

É o que temos.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

ALÉM-FRONTEIRAS / AQUÉM-FRONTEIRAS

Carlos Trincão

Tive que intervalar largas semanas, que o tempo, ao contrário do que pensamos, não dá para tudo. Até porque a gente, com a velocidade dos dias não dá pelo passar da vida…
Ainda atrasado no tema do mês passado, transformo-o agora no post livre. O crime fica para outro dia, ainda em Julho.
Frenesim era em Tomar, nos dias seguintes ao 25 de Abril: a sofreguidão por notícias era tanta que as pessoas iam à estação dos comboios esperar os jornais. Os revendedores que ali iam buscá-los, aí logo os vendiam! Improvisavam a banca naquele balcão largo e baixo que separava a área dos passageiros da área de despachos e preparação de carga. Largavam os maços atados, desatavam-nos à navalhada e tinham que ter cuidado com algum cliente mais impaciente que se apressasse a pegar no jornal e se esquecesse de pagar.
Frenesim é agora por essa Europa fora, atentado atrás de atentado. Frenesim é agora na Turquia, golpe atrás de golpe. O problema, para variar, está nos homens, que aqui nem me atrevo a escrever com agá grande.
            O que me chateia é que o pessoal anda todo às turras por causa de nada a não ser esta ideia maluca de querer mandar nos outros à força. E depois, malham uns nos outros em nome do mesmo Pai: Alá, Jeová e Deus.
            Vai para largos anos, quando estive pela primeira vez na Turquia, se houve locais onde encontrei Tolerância com muitos tês maiúsculos foi, precisamente, nas mesquitas. Aliás, as notas de viagem turcas eram invariavelmente escritas nas mesquitas, pernas cruzadas e rabo no chão. O silêncio, o recolhimento e a frescura davam o tom ideal.
Agora, as coisas talvez comecem a ser bem diferentes. Não sei.
Nessa altura, e penso que ainda será, Kornurlar era uma aldeia perdida que nem vem no mapa. Calhava ficar mesmo à borda de um caravanserai da antiga Rota da Seda, entre Bursa e Iznic, a velha Niceia.
            Só isso já dava que pensar: Niceia, Concílio de Niceia quando o Cristianismo tinha dentes de leite, Credo oficial da Igreja… cuja igreja onde tudo aconteceu se visita agora num país de religião islâmica.
            Em Kornurlar, a vida seguia o ritmo não frenético da transumância, razão para que os amigos que ali fiz me dissessem que não precisavam de grandes casas. E realmente…
            As casas são o que são e que eu vi, mas a Mesquita era o seu ai-jesus, passo a expressão: simples, mas um mimo! Porém, o curioso é uma das pedras de uma das paredes exteriores de suporte com uma cruz cristã gravada que me apontavam com orgulho e sorrisos.
            Então porque é que a gente complica as coisas?
          Eu sei que houve a Guerra Santa; mas também houve Cruzadas, algumas tipo-vá-para-fora-cá-dentro, como aquela contra os Albigences, já para não falar da Inquisição ou do saque de Constantinopla. De modo que não vale a pena ir por aí, pois todos têm culpa no cartório. Nem vale a pena falar de minorias fundamentalistas, porque fundamentalistas também são muitas maiorias, islâmicas, judaicas ou cristãs. Ou políticas, mas isso é outra história. Ou não?
            Caramba, porque é que as coisas não são assim tão simples como naquela parede de Kornurlar?


domingo, 13 de março de 2016

TABULEIROS: PATRIMÓNIO MUNDIAL?

Carlos Trincão

O suplemento Fugas do diário Público de hoje, sábado, dia 11, inclui uma reportagem sobre Valência e as suas “fiestas”anuais: as Fallas de Valência, referindo que as mesmas são festa de Interesse Turístico Internacional e candidatas a Património da Humanidade da UNESCO.
Conheço relativamente bem as Fallas de Valência e considero-as, de facto, merecedoras da distinção universal tal o empenho popular, a organização por bairros, a eleição da “Fallera-Mayor” e o relevo que lhe é dado na cidade desde o momento da sua eleição até ao fim de festa, todo o trabalho em torno dos espantosos monumentos em “papel-carton” que ardem na noite de 18 para 19 de março e que desaguou numa próspera indústria com criativos a trabalharem nas propostas de um ano para o seguinte, as cinco intermináveis procissões simultâneas da “Ofrenda” à Virgem, a multidão de visitantes que entopem os acessos e esgotam os comboios, a estrondosa abertura que parece não acabar e faz tremer o chão com os foguetes e demais panóplia pirotécnica diurna, ao meio-dia em ponto, as “carpas” e as permanentes refeições comunitárias de bairro. E tudo o mais que uma festa tem e não é possível descrever.
A consideração das festas populares como Património Mundial Imaterial da UNESCO só foi possível depois de um processo levado a cabo por várias cidades da bacia euro-mediterrânica, entre as quais Tomar a convite da Representação da UNESCO em Portugal, denominado “Les Fêtes du Soleil”, com supervisão da própria UNESCO, do qual resultou, entre outros produtos, a denominada “Carta das Festas”, na prática a solicitação fundamentada à UNESCO do alargamento do conceito de Património Mundial Imaterial às festas populares.
Este processo decorreu entre 1986, lançado na Presidência de Pedro Marques, e desenvolvido e concluído em 2001, na Presidência de António Paiva.
Depois disso, não houve Presidente da Câmara que não afirmasse que se estava já a trabalhar no sentido da candidatura da Festa dos Tabuleiros a Património Mundial Imaterial, pois que Tomar estivera naquele processo precisamente por causa da sua Festa Grande.
Há relativamente pouco tempo, a Presidente Anabela Freitas voltou a tocar no assunto dizendo qualquer coisa como isto: vamos tratar do processo da Candidatura a Património Mundial, mas antes teremos que conseguir a sua consideração como de importância nacional.
Não estou certamente a ser fiel às suas declarações, pois escrevo de memória. Mas o espírito da declaração é este.
Entretanto o tempo passa. E tenho para mim que cada dia que passa é mais um obstáculo à concretização do que dizem que se pretendem. Sim, porque nesta altura já não tenho certeza sequer se há essa vontade assumida!

Enfim!

quinta-feira, 3 de março de 2016

PROVEDOR DO MUNÍCIPE


O Município de Tomar aprovou, há cerca de um ano, a criação do Provedor do Munícipe, faltando, ao que sei, questões formais para a sua operacionalização.
Sendo assim ou não, o que importa é que a Autarquia criou tal figura, o que é muito positivo.
Ora… em 16 de dezembro de 2005, a Assembleia Municipal de Tomar aprovou, por unanimidade, uma proposta de minha autoria, enquanto membro da AM eleito pelo Bloco de Esquerda, para criação do Provedor do Munícipe enquanto instrumento de defesa e apoio aos munícipes. Posteriormente, por decisão da Conferência de Líderes, elaborei um esboço de Proposta de Estatuto, em março do ano seguinte, tendo sido assumido a convocação de uma nova reunião da Conferência de Líderes para análise do documento e elaboração de uma Proposta definitiva a apresentar à Assembleia Municipal até 31 de Dezembro de 2006, como implicava a proposta referida: “Assim, proponho que a Assembleia Municipal de Tomar incumba a Reunião de Representantes de Grupos Municipais de estudar as linhas gerais para a criação do cargo acima definido com vista à criação posterior de um Grupo de Trabalho que consolide tais ideias e apresente à Assembleia Municipal, durante o ano de 2006, propostas que contenham o seu Estatuto.”
O curioso é que após a distribuição do texto-base pelos meus colegas da Conferência de Líderes, nenhum outro Grupo Municipal representado na Assembleia sugeriu qualquer alteração e todos os membros da dita Conferência de Líderes impediram a criação do tal Grupo de Trabalho e inviabilizaram a subida do texto para debate e votação em plenário.
Por outras palavras, os líderes dos Grupos Municipais PSD, PS, CDU e Independentes por Tomar recusaram em 2006, de forma nada democrática, dada a decisão de dezembro de 2015 da própria Assembleia, a discussão do assunto no local próprio. Mais: impediram o cumprimento de uma deliberação da Assembleia Municipal!
Curiosamente, dez anos depois surge então o Provedor do Munícipe.
Não sei qual o sentido de voto das formações políticas agora: se todos votaram a favor, se uns contra e outros a favor, e se houve ou não abstenções. Nem me interessa, em boa verdade.
Aliás, é interessante ver como um mesmo Partido, na AM, que há uma década impediu a concretização de uma deliberação da própria AM esteja agora tão impaciente com o atraso na concretização do cargo ora criado…
Mudaram-se as vontades e os interesses, como é natural nestas coisas. Porém, para a nossa pequena História Municipal fica a infantil e preconceituosa postura daquelas quatro formações políticas naquela época.
É caso para dizer que se demorou 10 anos a emendar a mão e a dar razão ao Bloco de Esquerda!


Carlos Trincão

terça-feira, 1 de março de 2016

HERANÇAS

Se Gualdim Pais é carne, ferro, território e cidade, Iria é espírito, devoção, povo e nação.
É esta diferença que faz a diferença entre o 1 de março e o 20 de outubro.
Se em outubro, em pleno outono e a caminho do inverno se faz sentir o calor de uma celebração que é identitária de uma comunidade, já em março, em finais de inverno e a caminhar para a primavera, o que se sente é frio celebracional, pesem embora muitos e vários esforços para criar ambiente.
O problema do 1 de março é o seu cariz pouco popular, pois criado por decreto há algumas décadas, alterando o feriado municipal do dia da Padroeira para o dia do Fundador.
Em outubro há feira, pessoas e procissão; em março há desfile, instituição e entidades singulares ou colectivas.
Será outubro mais importante que março?
Não creio. Nem subscrevo.
Porque radicalmente diferentes.
São dois patrimónios irrepetíveis e, curiosamente, oponíveis na sua essência: outubro, de Iria, santa simbólica (Irene e Paz); março, de Gualdim, fero, guardião e comandante de guerra.
Porque os extremos se atraem e complementam.
Todavia, março é também Herança.
De um território que se consolidou, de uma economia que cresceu e se transformou ao longo dos séculos, de ordens religioso-militares que aqui aquartelavam e mandavam noutros territórios, de povos que se sucederam, de povoação com estatuto real, de prioridado com categoria de diocese mundial, de crescimento urbano, de inovação arquitectónica e artística, de personalidades que, na sua singularidade, deram força ao colectivo.
Portanto, ignorando as questões iniciais do território e da nação, de março e outubro, respectivamente, o que interessa mesmo, em cada primeiro de março é saber se somos inequívocos herdeiros daqueles que nos antecederam e se estamos à altura da Herança legada.

Ou se a malbaratamos…

Carlos Trincão