APRESENTAÇÃO

“A TERRA DE QUE A GENTE GOSTA” é expressão que nos agrada. É sentida e é profunda, e é adotada como a ideia força de “TomarOpinião”.

Pretendemos oferecer críticas construtivas e diversificadas sobre os valores, as coisas e as atualidades da nossa terra, e não só. Pretendemos criar um elemento despertador de consciências e de iniciativas de cidadania, e constituir uma referência na abordagem descomprometida desses valores, dessas coisas e dessas atualidades.

Queremos, portanto, estimular o debate, de temas e de ideias, porque acreditamos que dele podem resultar dinâmicas de cidadania, que alicercem mudanças que por certo todos aspiramos.

“TomarOpinião” será um blogue de artigos de opinião e um espaço de expressão livre e responsável, diversificada e ampla.

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sábado, 30 de abril de 2016

EU NÃO GOSTO DE ÁGUA


  
Carlos Carvalheiro 

 Eu não gosto de água. Do sabor, entenda-se. Por isso nunca bebo água. À exceção de um copinho de água por ano na nascente dos Pegões, antes de começar a “demanda” dos bolinhos, nos Brasões, no 1º de novembro.

  Mas como um blog sério como este em que aceitei colaborar definiu para tema de abril a água, não sei se por causa do “abril, águas mil”, eis-me aqui a desviar-me do triângulo mais “alavancador” que nos rodeia chamado Nabão, Zêzere e Tejo e a focar-me no negócio de milhões que, quando começou, me pareceu o mais improvável do mundo: a água engarrafada. Por aqui se vê o que eu percebo de negócios, pelo menos no que toca a ganhar dinheiro.
  Em praticamente todo o mundo a sul do Trópico de Cancer, um dos fatores de não desenvolvimento é a falta de agua canalizada. Uma comunidade que tem uma fonte, tem um tesouro.
  Em Tomar, a Fonte da Prata, que ficava ali onde é hoje a rotunda na ponte nova, era local de calhandrice. Quando foi estreado, em 1979, o espetáculo “Fatias de Cá com Nini Ferreira” onde se recriaram quadros de revista à tomarense dos anos 30 a 50, lá estava isso retratado.
  E então, até ao 25 de abril, as pessoas iam às fontes buscar água nos cântaros, mesmo quando já tinham água canalizada, porque achavam a água mais saborosa, tendo umas fontes mais nomeada que outras, como era o caso da da Asseiceira ou da de Marmelais (hoje em dia com uma placa —das pequenas, não das grandes— a dizer “imprópria para consumo”, que tristeza, embora a mim de pouco me sirva a informação, que nem que fosse “própria” eu a bebia…).
  Claro que as águas mais famosas do país eram as “minerais” do Luso ou do Vidago e as gaseificadas Carvalhelhos ou Pedras Salgadas. Também havia as das termas, boas para a saúde mas um bocadinho mal cheirosas, não se pode ter tudo. Mas estas nunca se venderam em garrafas. Ao menos que eu saiba. Quem queria águas das termas, tinha de para lá ir fazer os tratamentos. As outras eram vendidas em garrafas de vidro. Até que, neste últimos anos, apareceram as garrafas de plástico e começou um negociozorro: água engarrafada das mais variadas proveniências. E as pessoas passaram a comprá-la aos garrafões e a andar com garrafinhas na mão a bebericá-la. E o velho copo de água deixou de ser usual.
  E assim se passou a vender um produto que a Natureza nos dá e os serviços municipalizados nos fazem chegar a casa para tomar banho e lavar roupa e loiça mas, para beber, toca a beber da garrafinha, que custa tanto como a bica, o que dá mais de 2€ por litro, chegando a custar o dobro ou o triplo em estações de serviço ou em esplanadas armadas ao pingarelho.
  Coitado do Barrela, se ainda hoje andasse a vender água da Asseiceira numa carroça com cântaros, como o fazia nos anos 60. Distribuía a água por diversas casas em Tomar e o negócio corria bem. Ao menos uma vez, tendo vendido toda a água, e para não perder tempo a voltar à Asseiceira para reencher os cântaros, vai de os encher na fonte de S. Lourenço, à saída de Tomar. Foi apanhado. Por isso, quando passava com a sua carroça cheio de cântaros ouvia do passeio “Queres ser rico?”, ao que o Barrela, fazendo o tchh-tchh com a boca, dizia: “Anda macho… anda cabrão…”.




terça-feira, 19 de abril de 2016

ESPARTILHAR NA ÁGUA

Mário Cobra

 Vamos lá então a uma lambuzadela sobre o tema da nossa caríssima água. Caríssima porque cara. Para os deístas, Deus, supremo criador, certamente formou os rios. Talvez porque deísta, um dos nossos recentes autarcas tomarenses, perante a passagem à situação de pensionista do último guarda-rios, terá decidido “Se Deus criou os rios, pois Deus que os limpe”. Assim foi extinto o cargo. O rio Nabão ainda não foi extinto. 
  Recuando a aguados primórdios, na opinião dos crentes o banho original terá sido tomado pelo Adão e Eva, decerto nus, ainda não existiam vestes nem comissões de censura. Andando que temos de ir fazer o almoço, a água já está aquecer no fogão, ao longo dos séculos e séculos ámen Jesus a água dos rios e dos poços foi regando sementeiras, lavando bochechas. Construíram-se represas, azenhas. Por volta de 1160, mais coisa, menos coisa, por cá D. Gualdim Pais subiu o morro, olhou o rio e disse “Vamos aqui tomar um banho”. Podia ter sido a origem do nome da cidade. Pelo visto, não foi. Vai daí os Templários mandaram construir um castelo e certamente o pessoal dedicou-se à pesca. Então o peixe sabia a peixe. Além das cavalgadas templárias, acreditamos que então existissem as caldeiradas templárias. Adiante que a água já está a ferver no tacho do almoço. Mais açudes, mais artefactos, mais banhos no rio, anos 50 do século passado a barragem do Castelo do Bode valorizou a retenção da nossa água, neste caso do rio Zêzere, fluindo a produção de electricidade. No final dessa década, sabe-se lá por que carga de água, foi necessária uma manifestação para impedir que o precioso líquido da nascente do Agroal fosse desviado para a abastecer Fátima. Admita-se que roubar um rio seria então tão insólito como agora prever a falência do BES por falta de liquidez. Entretanto, os poços da Mendacha foram e são manancial no florescer do abastecimento de água ao domicílio. 
 Vai daí ao caso, agora a água está caríssima, assim como a energia eléctrica. Os Serviços Municipalizados de Tomar obtiveram lucros superiores a 500 mil euros em 2015, pagando os munícipes das águas mais caras do país, assim como a EDP previa lucros de 900 milhões. Assim sendo, a água é uma boa mina, é só os serviços abrirem a torneira dos preços.
  Entrementes, a água borbulha no tacho, vamos cozer as batatas e uma posta do cherne da questão. Também há o vinho. Não se esqueçam de lavar sempre as mãos antes das refeições e depois de tossicarem por causa das gripes.
              

terça-feira, 1 de março de 2016

TOMAR PASSADO E FUTURO

Tomar foi sede de ordem militar e mais tarde de região militar, local de poder nacional, cidade antes de muitas e até antes de muitos países da Europa, a que agora pertencemos, como antes contribuiu para o descobrimento do mundo.
Tomar é para as últimas gerações, mais passado do que futuro.
Tomar é recordação de uma grandeza, militar, económica e industrial, Tomar é recordação de ser a maior cidade entre Coimbra e Lisboa.
Tomar é presente, com o peso de um passado glorioso e marcante, de quem tem património paisagem e história, mas perdeu o futuro.
Tomar é a contradição das pessoas, de modos de vida, de modos de ver a vida e de uma desunião como em  poucos outros locais.
Tomar vive na sombra do que foi e na perda de tudo o que já teve.
Tomar poderia ser, mas já não é o que poderia ser, pois tal como o seu rio que por cá passa e não volta, também as oportunidades passaram.
Tomar só pode ser o que as pessoas de cá quiserem e fizerem, por isso Tomar é o que as pessoas de cá fizeram e quiseram.
Costumo dizer, que por alguma coisa nos Açores, se dão os ananases e na Madeira as bananas, em Tomar temos este conjunto de pessoas, umas cá nascidas, mas uma grande maioria de outros locais a norte e a sul, que manifestamente pouco ou mesmo nada, têm feito no seu conjunto por Tomar, porque existem mais motivos a separar as pessoas, que a unir.
A Tomar falta a indústria, o comércio, o ensino superior, o hospital, os empregos, só para falar do que se poderia aqui ter nos últimos 50 anos, como outros e nós não temos. 
A Tomar falta a união por causas, a união por Tomar e pelas pessoas, a Tomar faltou lideres, que para isso dessem o seu melhor.
Tomar tem muitos treinadores de bancada, mas falta-lhe jogadores que ganhem os jogos. Tomar é muito bota abaixo e nada acima. Tomar é muito faz de conta.
Tomar antes do 25 de Abril de 1974, teve quem junto do poder lhe tratasse dos problemas, mas depois de 1974 nada, por isso o comboio parou em Tomar e a auto estrada A1 passou longe.
Por tudo isto Tomar comemora o seu aniversário no dia um de Março, só com os poderes de circunstância, porque a Tomar basta-lhe o seu passado, para o ser.

António Alexandre

UM DE MARÇO, FERIADO MUNICIPAL PORQUÊ?

Porque o Gualdim Pais aproveitou uma das pedras do castelo para lá inscrever que o iria reconstruir, do que resultou o castelo templário que veio a abrigar o burgo de Tomar até o rei D. João III ter deitado as casas todas abaixo e expulsado os que por lá moravam para prender em “gaiola dourada” os frades da Ordem de Cristo.

Bom, mas na verdade o “1 de março” é um feriado tão bom como outro qualquer, porque feriado quer dizer que é um dia de feira ou, como se veio depois a vulgarizar, um dia de férias  (quando os feriados foram inventados, não havia férias, é só desde há algumas décadas que acumulamos a coisa). E sempre é melhor assinalar um castelo que ali está à espera de melhor uso que o que motivava o antigo feriado municipal: a lenda da Santa Iria.

Quem conta bem as histórias (porque há duas versões) da Iria — ou Irene— é o Almeida Garrett em “Viagens na Minha Terra”, quando aproveita para dizer tanto mal de Santarém (corruptela de Santa Irene) por centímetro quadrado que a gente até se esforça por ler o livro até ao fim…

E então a Iria — ou Irene — era uma donzela cá da zona, na altura chamada Nabância, pelos meados do séc. VII. Namorou-se dela o jovem Britaldo, filho do conde que governava estas terras. Um tal monge Remígio terá dado a Iria uma bebida e ela ficou assim como que grávida. Vai daí o Britaldo manda apunhalar Iria por um criado e lançá-la ao rio, cujo corpo vai descendo pelo Nabão, Zêzere e Tejo abaixo até “aportar” à ribeira de Scalabis. No entretanto, um tal abade Célio, teve uma revelação que lhe descobriu a verdade e os milagres do caso e comunicando-a logo aos monges e ao povo de Nabância, saiu com todos e foi por esses campos da Golegã fora até chegar à Ribeira de Santarém. Ai, benzendo as águas do rio, estas se retiraram corteses e deixaram ver o sepulcro que era de fino alabastro, obrado à maravilha pelas mãos dos anjos. Chegaram ao pé do túmulo, abriram-no, viram e tocaram o corpo da Iria, mas não o puderam tirar, por mais diligências que fizessem. Conheceu-se que era milagre; e contentando-se de levar relíquias dos cabelos e da túnica, voltaram todos para a sua terra.

Esta é a história da santa Iria dos livros. A história da santa Iria das cantigas é mais simples: 

A moça vive em casa de seus pais e um cavaleiro desconhecido, a quem dão pousada, a meio da noite, rouba-a e, chegando a um descampado, pretende fazer-lhe violência… A moça resiste e ele mata-a. Dali a uns anos, o cavaleiro volta a passar pelo local e vê uma ermida levantada no sítio onde cometeu o crime; pergunta de que santa é, dizem-lhe que é de Santa Iria. Ele cai de joelhos a pedir perdão à santa, que lhe lança em rosto o seu pecado e o amaldiçoa.

Por que é a santa Iria da trova popular tão diferente da santa Iria das lendas monásticas? Como diz o Almeida Garret, ou houve duas santas com o mesmo nome, ou nos escritos dos frades há muita fabula de sua invenção.

Que o povo goste de cantar romances, vá, é da sua fantasia, abençoado seja… Agora que a Eclesia venere uma história tão mal contada, cá para mim, nem o papa Francisco ia na cantiga…

Para os curiosos, aqui fica o romance popular:

Estando eu à janela coa minha almofada,
Minha agulha d'ouro, meu dedal de prata,
Passa um cavaleiro, pedia pousada.
Meu pai lho negou: quanto me custava!
— “Já vem vindo a noite, é tão só a estrada…
Senhor pai, não digam tal de nossa casa
Que a um cavaleiro que pede pousada
Se fecha esta porta à noite cerrada.”
Roguei e pedi — muito lhe pesava
Mas eu tanto fiz, que por fim deixava
Fui-lhe abrir a porta, mui contente entrava;
Ao lar o levei, logo se assentava;
Às mãos lhe dei água, ele se lavava;
Pus-lhe uma toalha, nela se limpava.
Poucas as palavras, que mal me falava
Mas eu bem senti que ele me mirava.
Fui a erguer os olhos, mal os levantava,
Os seus lindos olhos na terra os pregava.
Fui-lhe pôr a ceia, muito bem ceava;
A cama lhe fiz, nela se deitava,
Dei-lhe as boas-noites, não me replicava;
Tão má cortesia nunca a vi usada!
Lá por meia-noite, que me eu sufocava,
Sinto que me levam co’a boca tapada…
Levam-me a cavalo, levam-me abraçada,
Correndo, correndo sempre à desfilada.
Sem abrir os olhos, vi quem me roubava.
Calei-me e chorei — ele não falava.
Dali a muito longe me perguntava:
Eu na minha terra como me chamava.
— “Chamavam-me Iria, Iria a fidalga;
Por aqui, agora, Iria, a cansada.”
Andando, andando, toda a noite andava;
Lá por madrugada que me atentava…
Horas esquecidas comigo lutava;
Nem força nem rogos, tudo lhe mancava.
Tirou-a do alfange… ali me matava,
Abriu uma cova onde me enterrava.

No fim de sete anos passou o cavaleiro,
Uma linda ermida viu naquele outeiro,
—“Que ermida é aquela, de tanto romeiro?”
— “É de Santo Iria, que sofreu marteiro.”
— “Minha Santo Iria, meu amor primeiro,
Se me perdoares, serei teu romeiro.”
— “Perdoar não te hei-de, ladrão carniceiro,
Que me degolaste que nem um cordeiro.”

Carlos Carvalheiro

1 DE MARÇO, DIA DE XEQUE-MATE À RAINHA

                Diz a história, podem crer, numa clara manifestação de favor, a rainha D. Maria Anabela de Freitas nomeou Luís Ferreira Costa Cabral conselheiro de Estado, chefe de gabinete, par do reino e elevou-o a conde da parte de baixo de Tomar. Ex-corria o ano de 1845 (2013 no calendário nabantino).
            Na conjuntura, Luís Ferreira Costa Cabral criou a escola da arte, pôs em execução o código administrativo, reestruturou o número de favorecidos e tratou dos intermédios. Fez grandes inventários de arvoredos e bruxedos, mandou enxugar pântanos, construiu e levantou diques, dinamizou a indústria de bichos-da-seda. Em suma, tanto como em sumo, não houve nada em que a sua denodada mão não tocasse, marcando tudo com a forte punção da sua iniciativa tão arrojada quanto organizadora.
            Apesar da oposição e das dificuldades em conseguir manter as forças antagónicas que o apoiavam, o Luísferreirismo&cabralismo beneficiou da nomeação por parte de D. Maria Anabela de Freitas de novos pares do reino, seus apoiantes, que lhe deram a maioria na câmara alta, assim como na baixa.
            Durante esse período, que ficou conhecido pelo Luísferreirismo&cabralismo, este empreendeu um ambicioso plano de reformas, lançando os fundamentos do modernismo, sendo considerado um valido da rainha D. Maria Anabela Freitas. Apesar das suas origens modestas, Luís Ferreira Costa Cabral foi uma das figuras mais controversas do período de consolidação do reino, admirado pelo seu talento reformador, mas vilipendiado e acusado de nepotismo por muitos. A figura preponderante deste estadista, permitiu afirmar que em torno dele girou toda a política que caracterizou o reinado de D. Maria Anabela de Freitas.
            Escudado no exército de apoiantes, na Maçonaria e em clientelas que beneficiavam da política económica e financeira, baseada nas obras públicas e fomento, o Luísferreirismo&cabralismo lançou os alicerces da actual jeitosa situação.
            Em Janeiro de 1846 (2016 no calendário nabantino), o aumento da contestação e o imparável aumento da despesa, levaram ao corte do crédito, tendo o Luísferreirismo&cabralismo entrado em agonia. O descontentamento popular era tal que a mínima agitação ameaçava resultar em sublevação. Perante o alastrar da contenda, muito a contragosto, a rainha D. Maria Anabela Freitas foi obrigada a demitir Luís Ferreira Costa Cabral, que se exilou para Madrid (leia-se Alpiarça).
            Perante a contestação popular, assessores da rainha D. Maria Anabela de Freitas pressionaram-na a tomar medidas, tendo mesmo altos conselheiros do reino oferecido uma fita métrica para sua majestade tomar essas medidas. Alertaram-na:
            - Majestade, o povo tem fome.
            Resposta seca de D. Maria Anabela de Freitas:
            - Já dizia a minha ex-colega, rainha Maria Antonieta, se o povo não tem pão que coma brioches, se não há brioches coma tremoços…
            A propósito, luminosidade na ponta da língua, a rainha ordenou:       
            - Já sei, faça-se uma grande festa no dia 1 de Março, assumindo-se data de comemoração do grande regabofe do reino.
            - Majestade, infelizmente não há dinheiro para foguetes.
            - Faça-se uma colossal feijoada pública, o pessoal que faça a festa e mande os foguetes. 
            - Majestade, os descontentes falam em xeque…
            - Querem um cheque?
            - Sim, majestade, querem um xeque-mate à rainha…

            ******
          

            Mário Cobra

A MÍSTICA TOMAR

 A cidade de Tomar tem uma fantasia, um chamamento muito peculiar que desperta um “mix” de sensações vividas com uma intensidade marcante e muito própria. De difícil explicação, talvez, fruto de um tal esoterismo templário que nos atrai. Existe uma magia muito própria, onde a atracção está presente por quem aqui passa, e é marcado profundamente. Todos os lugares nos marcam, de uma forma ou de outra, mas Tomar é diferente.
  Um rio que leva no seu leito um passado histórico, que a natureza desenhou nos seus traços de água e verdura em volta, coube aos nossos antepassados começando por construir e erguendo lá num alto, um castelo imponente e cheio de misticismo. A cidade de Tomar é por isso um lugar diferente de todos os outros, tem um mistério próprio. Do manto chamado "Nabão", espelha-se os monumentos que confirmam a grandeza desta terra, a existência da multiplicidade de religiões e culturas que aqui esteve presente, e quantas obras e importantes individualidades por aqui passaram, e por aqui ficaram.
  Com um passado tão rico, devidamente reconhecido em todos os livros de história, é tempo de voltar a escrever novos e importantes acontecimentos, neste presente cada vez mais rápido e vivido. Como primeiro artigo, não podia deixar de referir a importância, muitas vezes esquecida que Tomar foi, é, e será sempre.
  Vamos entrar na segunda década do século XXI, Tomar apresenta-se como uma cidade amorfa, sem vida, vivendo apenas do passado, e não baseando o passado para construir um futuro promissor. O legado de Tomar é deveras importante e não deve ser desresponsabilizado de todos nós, que temos a obrigação de contribuir para que as conquistas do passado não tenham sido em vão. Não se pode banalizar o legado que aqui ficou.
  O dia da cidade é o momento ideal para refletir para onde queremos levar, o que queremos deste lugar, e que legado queremos deixar às gerações vindouras. Esta gente, esta Terra chamada Tomar que se torne um local honrado no seu passado, no seu presente e no seu futuro. Como? Inspirando cada vez mais o sentido cívico e o sentido de amor pela terra que nos acolhe.
  Por vezes, caísse na tentação de fazer diferenciação entre as gentes por aqui passam, e as gentes que nascidas aqui. A bem da verdade é preciso perceber que todos nós estamos de passagem, e os ditos “metecos” desta terra devem ser igualmente valorizados e respeitados, pois também vivem e sentem este lugar como deles. Tanto para o bem como para o mal, este lugar marca qualquer um.
  Como um jovem que ama as suas raízes e a sua terra, tenho todo o gosto em dedicar-me a temas, e a dar o meu singelo contributo, daquilo, que em minha perspetiva é importante ser discutido, e ser proposto a Tomar.
  Concluindo, em dia da cidade, a mística de Tomar seja devidamente vivida. Ela existe, ela está no quotidiano deste burgo, em cada esquina, em cada lugar, em cada personagem que conta um pouco da história por quem passa no centro histórico, e sobretudo, pelo legado que está em cada monumento com a sua devida imponência e preponderância na História de Tomar e na História deste País.   

António Pedro Costa

REFUNDAR

O que a historia nos diz é que em 1 de março de 1160 foi dado inicio à construção do Castelo Templário de Tomar, e que em 1162 foi recebido foral de D. Afonso Henriques.
Construir, Fortificar e Territorializar.
Podemos admitir que a fundação de Tomar assentou nestes 3 alicerces. E uma eventual refundação também o pode. Poderão faltar os Cavaleiros, mas a fonte inspiradora pode ser assegurar e divulgar os seus ideais e a sua obra.
Fala-se em refundação porque a Cidade padece desde há algumas décadas de uma crise viral, que lhe ataca os tecidos social e económico e ameaça reduzir a sua significância. Os seus efeitos são visíveis no êxodo da população ou no desaparecimento de empresas e de empregos, e na escassez de iniciativas geradoras de esperança num futuro capaz. Além disso, os empregos que restam evidenciam uma crescente e presentemente perigosa dependência do orçamento do Estado. 
E se assim é, porque não vamos conceber uma refundação genericamente estribada nesses mesmos 3 alicerces?
Construir, em primeiro lugar um paradigma que sirva para orientar e pautar o desenvolvimento, e as iniciativas para atrair investimentos, tendo em vista criar emprego e atrair população.
Onde encontrar esse paradigma, que é uma busca que tantas cidades realizam presentemente? A este propósito, recordo as manifestações de estranheza que tenho encontrado em tantos autarcas que também o buscam, e olham para Tomar e não entendem porque não valorizamos devidamente o que temos de especifico.
Olhemos a partir da Cidade para cima, para o Castelo, e não é então difícil de entender essas manifestações. Da conjugação de esforços, da união de povos e de civilizações que desde sempre nortearam o projeto templário, podemos retirar ensinamentos e utilidades essenciais para ajudar na construção deste capitulo…

Fortificar, a seguir, as vantagens e as especificidades que temos para darem corpo ao paradigma que for eleito, e para diferenciar e potenciar o desenvolvimento. Tratar-se-ia aqui, por um lado, de associar e de integrar as competências e as dinâmicas das comunidades académica e empresarial, em particular. Há que criar conhecimentos e propostas robustas para fixar objetivos e para pautarem os caminhos a percorrer. E os novos fundos comunitários já disponíveis estão vocacionados para apoiarem abordagens destas.      
Territorializar, também, olhando para Tomar como uma das malhas constituintes de um território mais vasto que o Concelho, mas unido pelo mesmo paradigma, de modo a constituir uma rede de parceiros e de iniciativas, públicos e privados, que se possam reforçar mutuamente e concorrer para o objetivo comum, de devolver vida e esperança a comunidades que a perderam, ou estão a perder.           
Na passada semana, a Lusa fez um despacho com noticia acerca de projeto de recuperação do Castelo Templário. Fala-se numa “visão estratégica do monumento” e de “um trabalho em rede, na região e no território, como altamente potenciador do desenvolvimento”. As palavras são da Diretora do Convento, e exibem uma visão com muito interesse. É uma visão exterior à Câmara de Tomar. Iremos perder mais esta oportunidade, oferecida?             

António Lourenço dos Santos

HERANÇAS

Se Gualdim Pais é carne, ferro, território e cidade, Iria é espírito, devoção, povo e nação.
É esta diferença que faz a diferença entre o 1 de março e o 20 de outubro.
Se em outubro, em pleno outono e a caminho do inverno se faz sentir o calor de uma celebração que é identitária de uma comunidade, já em março, em finais de inverno e a caminhar para a primavera, o que se sente é frio celebracional, pesem embora muitos e vários esforços para criar ambiente.
O problema do 1 de março é o seu cariz pouco popular, pois criado por decreto há algumas décadas, alterando o feriado municipal do dia da Padroeira para o dia do Fundador.
Em outubro há feira, pessoas e procissão; em março há desfile, instituição e entidades singulares ou colectivas.
Será outubro mais importante que março?
Não creio. Nem subscrevo.
Porque radicalmente diferentes.
São dois patrimónios irrepetíveis e, curiosamente, oponíveis na sua essência: outubro, de Iria, santa simbólica (Irene e Paz); março, de Gualdim, fero, guardião e comandante de guerra.
Porque os extremos se atraem e complementam.
Todavia, março é também Herança.
De um território que se consolidou, de uma economia que cresceu e se transformou ao longo dos séculos, de ordens religioso-militares que aqui aquartelavam e mandavam noutros territórios, de povos que se sucederam, de povoação com estatuto real, de prioridado com categoria de diocese mundial, de crescimento urbano, de inovação arquitectónica e artística, de personalidades que, na sua singularidade, deram força ao colectivo.
Portanto, ignorando as questões iniciais do território e da nação, de março e outubro, respectivamente, o que interessa mesmo, em cada primeiro de março é saber se somos inequívocos herdeiros daqueles que nos antecederam e se estamos à altura da Herança legada.

Ou se a malbaratamos…

Carlos Trincão

EVANGELHOS DE TOMAR

Em 1317, o tomarense Gil Esteves jurou sobre os evangelhos que aqui, antes de haver castelo, existiu uma nobre cidade cristã. Tinha acabado o Natal e os inquiridores de D. Dinis, de pena em punho, interpelavam os anciãos de Tomar procurando saber sobre a sua antiguidade. Até ao fim desse ano obteriam mais relatos, corroborando a memória deste morador do castelo de Tomar cujo avô, Martim Tinoca, o ouvira da boca de Dom Mendo que morara, cem anos antes, junta à porta do castelo.

Ficavam assim, D. Diniz e a história, a saber que este vale tinha sido ocupado por antigos cristãos, monges beneditinos, dos quais se destacava um Abade Sélio, tio de Santa Iria. Estas declarações aludiam também a uma cidade chamada Nabância, da qual restavam ainda edifícios “além da água”, na margem esquerda do rio. Há quase setecentos anos registava-se assim a história possível.

Em finais do século XIX, Possidónio da Silva, insigne arqueólogo, fundador do Museu arqueológico de Lisboa e arquitecto de Sua Majestade o Rei, conhecedor dos clássicos e também do relato de Gil Esteves, anuncia ao mundo civilizado a descoberta da antiga cidade romana de Nabância, a sul de Tomar. Falava-se mesmo, nos círculos científicos internacionais, de uma “Pompeia Lusitana” !

Por volta de 1885 estas ruínas arqueológicas, situadas na zona de Marmelais de Baixo, teriam já recebido cerca de 10 000 visitantes nacionais e estrangeiros, obrigando mesmo à contratação de um guarda. Esta enchente de forasteiros ávidos de história levou Possidónio a defender, na revista Monumentos Nacionaes, a criação de um Museu de Antiguidades. Entretanto, a estrada de Marmelais de Baixo era conhecida como Estrada da Nabância e, em 1913, a revista Ilustração Portuguesa difunde fotos do local como um importante vestígio romano a visitar.

A par dos monumentos da cidade, esta ruína romana era ponto de atração turístico muito antes dos anos 30, data da abertura das ruínas de Conímbriga.

Contudo, as contingências socio económicas da Iª Grande Guerra terão provavelmente contribuído para uma degradação tal destas ruínas e do seu pequeno museu que, a partir da década de 20, o Coronel Garcês Teixeira, defensor das antiguidades tomarenses e membro da União dos Amigos dos Monumentos da Ordem de Cristo – UAMOC, defende que as ruínas sejam soterradas e o espólio histórico sobrevivente recolhido pela UAMOC. Contribuiu também para este processo de esquecimento institucional o facto de aquelas ruínas não pertencerem à “cidade”, idealizada por Possidónio da Silva, mas sim a uma Vila Rústica, uma exploração agrícola cuja casa senhorial era de tal modo sumptuosa que enganou o velho arqueólogo monárquico.

Deste modo, Nabãncia permaneceu no rol dos mitos até à década de 50, aquando da expansão urbana na margem esquerda do rio Nabão. Nessa época são descobertos vestígios de grandes edifícios cuja verdadeira escala será aquilatada apenas na década de 80.
Ao longo destes sete séculos de historiografia tomarense muitos artefactos viram a luz do dia e muitos relatos foram obtidos, tanto de gente insigne como insignificante. Os próprios templários, necessitados de pedra para o castelo, tiveram oportunidade de constatar a presença dos “antigos”.

É já tempo de testemunhar e celebrar todos aqueles que aqui viveram. Tomar merece um repositório da sua memória, onde todos partilhem do conhecimento da história, à semelhança de outras cidades com a mesma escala cultural.


Rui Ferreira